







 A viagem

   Hannah Howell

   A Christmas in Paradise
   Famlia Kenney 1

    Montana, EUA, Sculo XIX
    Ao encontro do amor...
    Cumprindo uma promessa feita ao pai, Deidre Kenney e sua prima Maura, partem em direo a Montana levando na bagagem, documentos importantes, que faro com que 
Tyrone Callahan no perca sua fazenda.
    Para despistar possveis ataques de pistoleiros que querem se apossar de tais documentos, Tyrone enfrenta os perigos da viagem ao lado de Deidre, conduzindo-a 
em segurana pelas pradarias congeladas do oeste selvagem. Contudo, no ser necessrio muito tempo para Deidre perceber que o verdadeiro perigo reside nos desejos 
e sentimentos que Tyrone lhe desperta.
    Desejos que logo comeam a tomar conta de seu corao ainda no desbravado.
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    Prlogo
    
    Dunstanville, Missouri, Outubro de 1822
    
    - No consigo estancar o sangramento. - Deidre Kenney tinha a voz embargada pela dor.
    Desviando o olhar do corpo inerte e fraco do pai, ela fitou Maura, sua prima, e notou seu temor pela morte prxima. Fazia j meia hora que seu pai irrompera 
pela porta da casa do pequeno stio nos arrabaldes de Saint Louis sangrando profusamente devido aos ferimentos  bala, e era impossvel deixar de aceitar a crua 
verdade: ele ia morrer.
    - Meus anjos - murmurou Patrick Kenney, tornando a recuperar a conscincia e alternando o olhar entre a filha e a sobrinha. - Meu fim se aproxima.
    - No, papai!
    - No, tio! - reforou Maura.
    - Temos de aceitar os fatos, queridas. Sentirei saudade. Mas, antes de partir, devo revelar algo e pedir que terminem uma tarefa para mim.
    - Tem a ver com o ataque que sofreu?
    - Sim, filha. Trago algumas escrituras de posse no bolso do casaco que devem ser levadas  cidade de Paradise, no Estado de Montana, como prometi a meu amigo 
Bill Johnson antes de ele ser morto pelo mesmo motivo. No quero coloc-las em perigo, mas a promessa deve ser cumprida. E a recompensa que lhes entregaro  o legado 
que lhes deixo.
    - T-lo a nosso lado vale mais do que qualquer recompensa, titio.
    - Obrigado, minha querida, mas no  possvel mudar os desgnios de Deus, e agora peo que me escutem com ateno. Os documentos pertencem  famlia Callahan, 
da fazenda Kate, em Paradise, e devem ser entregues a eles antes do dia primeiro de janeiro. Os Callahan perdero tudo se as escrituras que confirmam a posse e o 
direito sobre suas propriedades no forem apresentadas e registradas no cartrio da cidade antes dessa data. No se esqueam de trazer a carta de Bill, pois ela 
nos d o direito de terminar a tarefa e receber a recompensa.
    - Ns o faremos, papai - prometeu Deidre, e Maura concordou com a cabea.
    -Talvez esteja pedindo demais a vocs, pois so duas meninas, e este  um trabalho perigoso.
    - Duas mulheres, papai. Ns o faremos ainda que apenas para no permitir que aqueles que atacaram Bill e o senhor triunfem.
    - Obrigado, querida. Odeio ter de deix-las, mas logo encontrarei minha adorada Maggie outra vez.
    Pouco depois, Patrick Kenney exalou o ltimo suspiro, ladeado pela filha e pela sobrinha. Dali em diante elas passavam a ser os nicos membros do que outrora 
fora uma grande e feliz famlia.
    As horas que se seguiram foram agitadas e, em certa medida, ajudaram a espantar a tristeza. Aps banhar e vestir o corpo de Patrick, Deidre e Maura comunicaram 
o sucedido ao xerife, sem receberem muitas esperanas de justia, e mais tarde seguiram a fim de fazer os arranjos para o funeral.
    Naquela fria e cinzenta manh, elas enterraram o ente querido ao lado do amor de sua vida, a esposa, que morrera alguns anos antes, e  tarde se prepararam para 
partir. No havia muito a fazer alm de arrumar a bagagem e pedir a um amigo de um rancho prximo que cuidasse do pequeno stio durante sua ausncia.
    - Estou com medo - Maura sussurrou, dentro da casinha modesta aquecida pelo fogo da lareira.
    - Eu tambm. - Deidre sabia que a viagem seria longa e perigosa. - Dois homens j foram mortos por causa desses documentos.
    - No  a primeira vez que ajudamos tio Patrick e Bill.
    - Certo, mas o que fizemos at agora no eram tarefas arriscadas. Ao que parece, os inimigos dos Callahan esto dispostos a tudo.
    -Est sugerindo desistir da viagem e da entrega das escrituras?
    - Claro que no! Necessitamos do dinheiro e, acima de tudo, no podemos permitir que a morte de meu pai e de Bill tenham sido em vo.
    - Ao menos teremos uma chance de ajustar contas se os responsveis pelos assassinatos nos seguirem.
    - Isso mesmo. Fez cpias de todos os papis, Maura?
    - Sim. Elas no podero substituir os originais, mas serviro para ludibriar nossos possveis perseguidores. Se for obrigada, lhes darei as cpias e eles ficaro 
satisfeitos at descobrirem que so papis sem valor legal e que os originais esto em outro lugar.
    - Talvez eu devesse tomar o caminho direto, por trem.
    - No, Deidre! Tiramos a sorte e coube a mim faz-lo. Voc ir pela rota indireta. No se preocupe comigo, saberei me proteger.
    -  mais fcil falar do que fazer. - Deidre abraou a prima com fora. - Cuide-se, pois agora s temos uma  outra.
    - Ainda que separadas, venceremos essa tarefa juntas e nos reencontraremos em Paradise. - Maura tentou sorrir.
    Deidre se afastou um pouco e retribuiu o sorriso.
    - Ao sucesso e  justia!
    
    - Um dos dois j devia ter chegado - disse Tyrone Callahan preocupado.
    - Nosso pai confiava em Bill Johnson e Patrick Kenney - disse Mitchell, irmo de Tyrone, sentando na poltrona da sala de visitas da fazenda Kate. - Talvez esteja 
atrasado por tomar precaues durante o caminho.
    - Um ms de atraso e sem ao menos dar notcias! Estamos em novembro, e isso me cheira a mais do que precauo. - Tyrone olhou pela janela. - O tempo passa rpido, 
e daqui a pouco perderemos tudo.
    - Qual sua sugesto?
    - Penso que devemos ir procur-los.
    - E se chegarem durante nossa ausncia?
    - Stephen ficar aqui para receber as escrituras e lev-las ao cartrio. Alm de ser nosso irmo, ele  advogado e saber fazer as coisas direito.
    -  como procurar uma agulha no palheiro. Nem sabemos qual dos dois tomou a estrada, se Bill ou Patrick.
    - Mas no podemos ficar aqui sentados, de braos cruzados. Temos de tentar algo.
    - Tem razo. Como faremos, ento?
    - Creio que devemos seguir separados e por caminhos diferentes. Voc toma a rota principal, mais direta, e eu sigo pela indireta, mais longa. - Tyrone, que j 
tinha um plano em mente, serviu usque para si e para o irmo. - Se no conseguirmos encontrar nenhum dos dois, nos encontraremos no escritrio de nosso advogado 
em Saint Louis. Assim ao menos poderemos tentar um adiamento de prazo.
    - Droga! Por que papai tinha de guardar esses papis em local to distante?
    - Porque suspeitava que os Martin tentariam roub-las. Papai suspeitou deles desde quando chegaram aqui, e devemos ser gratos por ele ter se precavido, pois, 
caso contrrio,  provvel que j tivssemos perdido tudo o que temos.
    - Ainda no compreendo como os Martin conseguem destruir at mesmo documentos que j foram entregues no cartrio da cidade.
    - Suspeito que tenham algum comparsa l dentro. - Tyrone aproximou-se com os copos, propondo um brinde. - Ao sucesso e  justia!
    
    
    Captulo I
    
    0 condutor da diligncia descia a mala de Deidre, que fitava o vilarejo ao qual acabavam de chegar. - O hotel fica ali na esquina - disse o rapaz ao depositar 
a bagagem a seus ps.
    Deidre observou o casaro e soltou um suspiro. Aquela era a segunda semana de novembro e ainda no chegara nem  metade do caminho. Seguir viagem por uma rota 
no direta, pulando de povoado em povoado e tendo de esperar pelo prximo transporte disponvel era algo bem demorado. No bastasse os hotis e as hospedarias serem 
desconfortveis. Pelo menos so baratos, tentou consolar-se.
    Apanhando a mala, prosseguiu em direo ao estabelecimento indicado, rezando para que ao menos fosse limpo e oferecesse gua quente para o banho.
    J instalada no quarto, reconheceu que tivera sorte, pois o dono do hotel era higinico, e seu aposento possua um banheiro privativo. Estava farta de ter de 
verificar se vinha sendo seguida. Sem falar na preocupao com Maura, que viajava de trem pela rota direta. Contudo, fora da prima a idia de separarem-se e viajarem 
por rotas diferentes.
    - Cuide-se, Maura - murmurou para si mesma, aguardando a tina de madeira se encher de gua quente para o banho.
    Aps o banho, Deidre colocou um vestido azul-escuro e desceu para o salo de jantar, que, para sua surpresa, estava repleto de gente. Um garom franzino aproximou-se 
e a conduziu para uma mesa de canto. Um pouco incomodada, viu a mesa a seu lado ocupada por um homem srio, de cenho franzido.
    Deidre fez o pedido, e o garom se afastou.
    Ela passou a estudar de soslaio o estranho. Era forte, vigoroso e de cabelos escuros, e a meia-luz do ambiente lhe conferia um ar perigoso. Parecia ser alto 
e, no momento, alerta, como se prestasse ateno ao que ocorria a seu redor. A nica coisa que suavizava suas feies eram os olhos encimados por longos clios negros, 
mas decerto no seria algum muito educado quando se zangava.
    Deidre tentou desviar a ateno, mas sem querer tornava sempre a concentrar-se no estranho de ombros largos guardados por um casaco de bom corte. No lhe produzia 
medo, pois no tinha ar ameaador, mas ainda assim ela se sentia desconfortvel. De qualquer forma, sentia-se cansada demais para dar importncia quilo, e assim 
que a comida foi servida, concentrou-se por inteiro no prato a sua frente.
    - Srta. Deidre Kenney?
    Ao ouvir seu nome, Deidre ergueu a cabea e deparou com dois desconhecidos. Teria sido encontrada? Se fosse, seus perseguidores, sem dvida mostravam muita coragem 
ao interpel-la num local pblico. Muitas vezes ouvira falar das maneiras mal-educadas e selvagens do Oeste, mas nunca tivera oportunidade de comprov-las face a 
face.
    Os sujeitos pareciam muito rudes e exibiam um olhar hostil. Num gesto automtico, Deidre tocou a pistola que trazia no bolso da saia. Ainda que pequenina, a 
arma seria capaz de matar, sobretudo a pouca distncia.
    - No falo ingls - disse ela em francs, exibindo um olhar inocente. Ser que conseguiria iludi-los?
    - No avisaram que ela era estrangeira. - Um deles fitou o companheiro, cofiando a barba suja. - Deidre Kenney? - tornou a indagar, virando-se para ela outra 
vez.
    Deidre recorreu mais uma vez s frases que conhecia em outro idioma, rezando para que o estranho no percebesse que o que ela dizia no fazia sentido.
    O homem praguejou.
    - Disseram que a moa era de Saint Louis, e em Saint Louis se fala ingls!
    - O pai dela falava ingls, Jim. E sabia praguejar bem. Ainda me lembro do que nos disse quando o apanhamos.
    Deidre sentiu um frio na espinha, pois aquele comentrio evidenciava que aqueles eram os malfeitores que atacaram Patrick. Entretanto, era necessrio manter 
o ar calmo e ingnuo.
    - Posso ajudar? - ofereceu-se o cavalheiro da mesa ao lado.
    Deidre sentiu-se ainda mais confusa. No tinha como dizer ao inesperado acompanhante que aqueles dois eram uma ameaa para ela. Se no bastasse, no tinha certeza 
de que ele tambm no representava uma ameaa. De todo modo, o pouco que sabia em francs ia se esgotar logo.
    Tyrone Callahan no conseguia crer na prpria sorte, pois algo lhe dizia que aquela era a filha de Patrick Kenney, o homem que traria seus documentos. Sem compreender 
o que ela estaria fazendo ali, ao menos ficara claro que necessitava de ajuda. E, mesmo que no fosse a filha de Kenney, jamais a deixaria  merc daqueles dois.
    Talvez no fosse s por isso que se dispunha a auxili-la. Apesar da aparncia frgil e delicada, a senhorita era muito bonita, ainda que no de acordo com os 
padres habituais de beleza. Seus cabelos ruivos estavam presos num coque e os olhos claros, talvez verdes, se sobressaam sob as sobrancelhas bem formadas. Seus 
lbios delicados davam-lhe um toque sensual, e Tyrone perguntou a si mesmo o quo grata ela poderia se mostrar caso ele colaborasse.
    - Compreende o que ela diz? - Jim quis saber.
    - Um pouco. - Tyrone meneou a mo.
    - Qual a dificuldade em dizer se se chama Deidre ou no?
    Ela tomou a se expressar no idioma estrangeiro.
    - O que ela falou? - perguntou Jim.
    - Que no entende o que voc diz. - Tyrone se esforava para no soltar uma gargalhada, pois Deidre dissera sua me no presta.
    Se o cavalheiro me entendeu e no me desmascarou  porque pretende colaborar comigo, Deidre concluiu.
    - No sei... - Jim coou a nuca. - A garota que procuramos corresponde  descrio fsica dessa a, mas ela diz que no compreende o que dizemos. Ser que no 
est nos fazendo de idiotas?
    - Voc a tratou com desrespeito, e ela no se incomodou. No teria se comportado assim se os houvesse entendido, no acha?
    Sem se convencer, Jim sacou o revlver e apontou a arma para a testa de Deidre.
    - No  Deidre Kenney?
    A arma estava to perto de sua face que Deidre podia sentir o aroma oleoso do mecanismo. Mas, mesmo horrorizada, tinha de continuar com a farsa. Ela arregalou 
os olhos e comprimiu as costas contra o espaldar, tentando formular a prxima frase em francs:
    - Por que no aponta essa arma para seu amigo imbecil e aperta o gatilho? - foi o que conseguiu proferir com voz trmula.
    - No creio que seja necessrio apavorar a senhorita. - Tyrone aproximou a mo da pistola que trazia guardada no coldre.
    - Um pouco de medo por vezes basta para obrigar algum a ser sincero. - O bandido pareceu relaxar um pouco. - Mas no parece ter dado muito certo com essa prostituta!
    - Talvez seja aprova de que ela est dizendo a verdade. Afinal, no  culpada por se parecer com a mulher que procuram. E devem considerar que ningum neste 
salo apreciar a maneira como ameaam uma moa indefesa.
    Aquele comentrio pareceu surtir algum efeito, e Jim guardou a arma.
    - Talvez essa tonta no seja quem procuramos, Pete.
    O comparsa de Jim fez que sim com a cabea.
    - Boa noite, madame - Jim ainda disse, antes de dar as costas e partir, fazendo um gesto para Pete acompanh-lo.
    Deidre os observou se afastar ainda se comprimindo, aterrorizada, contra as costas da cadeira, e s conseguiu se acalmar um pouco quando viu que Tyrone a fitava 
com um sorriso. 
    - Sente-se bem, senhorita?
    Deidre no sabia direito como se sentia. Naquele instante, o temor comeava a ser substitudo pela fria, devido  maneira como a tinham abordado e ameaado 
num restaurante onde deveria estar em segurana. Gostaria de se erguer e disparar contra aqueles bandidos que se afastavam, mas arranjara outro problema: quem garantia 
que o estranho da mesa ao lado tambm no fosse uma ameaa? Continuava sem poder revelar quem era.
    - Estou bem - disse, afinal. - O incmodo passou.
    - Incmodo?! Um estranho aponta um revlver contra seu rosto e voc diz que foi um incmodo?
    - No tenho termo mais adequado para descrever tal comportamento, pois jamais me fizeram isso antes. - Deidre ficou agastada, pois o cavalheiro parecia estar 
se divertindo a sua custa. Contudo, era necessrio reconhecer que seu sorriso mostrava honestidade e, afinal, o tornava um homem atraente.
    - Talvez possa achar uma palavra francesa para descrev-lo, srta. Kenney.
    - No sou a srta. Kenney! Pelo menos quanto a isso no estava mentindo.
    - Srio? A senhorita de fato se parece com Patrick Kenney, e ele poderia ser seu pai.
    - O que o faz pensar que conhece a aparncia de meu pai? - Para Deidre, aquele desconhecido devia ser mais um dos chacais que a perseguiam, s que tinha uma 
maneira mais sutil de abord-la.
    - Tive a oportunidade de encontrar Patrick Kenney algumas vezes. Nunca fomos amigos prximos, mas o conheci o suficiente para ver que de fato a semelhana fsica 
com a senhorita  tremenda. O que no compreendo  por que Patrick Kenney deixaria a filha viajar desacompanhada.
    - Ainda que o sr. Kenney fosse meu pai, minha presena aqui no deveria interessar a um estranho como o senhor.
    - Bem, creio que  melhor eu me apresentar. - Tyrone estendeu a mo num gesto amigvel, mas Deidre recusou o cumprimento.
    - No  necessrio.
    - No esteja to certa. - Ele baixou o brao. - Sou Tyrone Callahan, de Paradise, Montana.
    
    
    
    Captulo II
    
    - J consegue falar?
    Deidre meneou a cabea ao se dar conta de que estavam sentados ao lado da janela de seu quarto no hotel. Pelo visto, o sr. Callahan, se fosse mesmo ele, soubera 
tirar partido de sua surpresa. Bebiam licor, mas Deidre nem sequer se lembrava de ter sado do restaurante.
    - Sua presena em meus aposentos no  apropriada, senhor. Tyrone fez fora para no rir. At que enfim Deidre se recuperara do susto.
    - Voc me convidou. - Tyrone tomou um gole. - De qualquer forma, no creio que em sua cidade podero saber de minha visita a seu quarto, ainda mais porque a 
senhorita registrou-se com um nome falso.
    - Acredito que j tenha lhe agradecido pela ajuda no restaurante, mas  melhor que se v antes que arrune minha reputao.
    - Tarde demais. - Ele sorriu. - Aps ser ameaada no salo e em seguida levada para o quarto por um cavalheiro charmoso como eu, sua reputao j no  das melhores.
    Deidre tentou lembrar-se dos ltimos eventos, mas sua conscincia estava turva. Talvez houvesse desmaiado depois de ele dizer quem era, e Tyrone a carregara 
at ali, mas era impossvel ter certeza. De qualquer forma, o importante era faz-lo partir. Mesmo porque no era justo envolv-lo em seus problemas.
    - Por que acredita que me registrei com nome falso?
    - Desnecessrio continuar com a farsa, srta. Kenney. Sou Tyrone Callahan.
    - Devo acreditar nisso sem mais nem menos?
    - Suponho que no, em se tratando da filha de Patrick Kenney. - Tyrone retirou vrios papis do bolso do casaco e os deu a ela para que os conferisse.
    Deidre depositou o clice de licor sobre a mesinha entre as poltronas e comeou a l-los. Algumas notas fiscais e uma ordem de pagamento, tudo em nome de Tyrone 
Callahan. E, o mais importante, uma carta assinada por seu pai.
    - Prazer em conhec-lo, sr. Callahan. - E devolveu-lhe os documentos.
    -  imaginao minha ou ainda vejo dvidas em seu olhar?
    - Estou indo para Paradise por uma rota propositalmente confusa, e mesmo assim o senhor chega no momento exato para me auxiliar e, dessa maneira, conquistar 
minha confiana. No lhe parece um pouco estranho?
    -  de fato uma coincidncia que pode gerar suspeitas. Contudo no h muitas opes diferentes de se viajar por aqui, a no ser que se siga pelos campos selvagens, 
sem povoados nem hotis. O que no compreendo  por que justo a senhorita segue para Paradise em vez de seu pai ou Bill Johnson.
    - Os dois esto mortos. O sr. Johnson foi assassinado, e, uma semana depois, meu pai.
    - Sinto muito, srta. Kenney.
    Ambos mantiveram silncio por um momento antes de ele prosseguir:
    - Eu sabia que guardar os documentos de minha famlia envolvia riscos, mas jamais pensei que os Martin fossem capazes de matar para obter seus desgnios.
    - Os Martin no desejam que sua famlia prove a posse das terras?
    Tyrone respirou fundo, parecendo incomodado.
    - Os Martin ainda no so donos de Paradise, mas  o que desejam, e no hesitam em ameaar os legtimos proprietrios das terras de maneira a expuls-los. Se 
continuarem assim, em breve mandaro em tudo por l.
    - Compreendo.
    - Minha famlia possui uma grande fazenda e os direitos de explorao de minrios na regio. Se os Martin conseguirem o que nos pertence, iro se tornar os maiores 
latifundirios e bares de gado de Montana.
    - Imagino que, mesmo j tendo conseguido muito, os Martin no ficaro satisfeitos enquanto no tiverem tudo. Conheo esse tipo de gente.
    As coisas comeavam a fazer sentido, e Deidre odiava saber que seu pai e o amigo Bill haviam sido assassinados por motivos to vis.
    - Mas se vocs esto em Paradise h mais tempo que os Martin, por que no tm os documentos que provam suas posses?
    - Porque eles desapareceram misteriosamente. Entretanto, meu pai era inteligente. Assim que os Martin comearam a chegar, ele fez cpias oficiais das escrituras 
e as guardou longe de Paradise. Na poca, nem eu nem meus irmos compreendemos o motivo de papai agir assim, mas agora est claro que fez o certo antes de morrer.
    - Creio que meu pai tambm no sabia que guardar esses papis envolvia risco de morte. Ele no era covarde e no se importava em lutar por uma boa causa, mas 
duvido que tivesse se arriscado tanto por isso.
    - compreensvel. Tambm ns jamais imaginamos que colocvamos Bill e Patrick numa situao de perigo fatal; do contrrio, eu mesmo teria vindo buscar os documentos. 
Como disse, jamais nos ocorreu que os Martin fossem capazes de chegar a esse extremo.
    A maneira como Tyrone falava e o brilho em seus olhos no deixavam margens a dvidas: ele era sincero.
    - Minha prima Maura tambm segue para Paradise levando cpias dos papis. No so oficiais e no possuem valor legal, mas podem servir para enganar eventuais 
perseguidores. Maura tomou a rota mais direta, por trem, pois acreditamos que separadas teramos mais chances de xito.
    - O ataque que sofreu no restaurante significa que os Martin j sabem ao menos de parte de seu plano, senhorita.
    - Sim. S peo a Deus que no descubram que minha prima segue de trem. Maura vivia h pouco tempo conosco e quase nunca saa de casa. Como moramos fora de Saint 
Louis, no creio que algum possa imaginar que ela tambm tenha partido para Paradise.
    - No tem como avis-la? Enviar um telegrama, talvez?
    - No. Combinamos que no o faramos, pois telegramas so interceptados com facilidade e isso traria mais riscos.
    Tyrone tinha de aceitar que Deidre tinha razo. Na verdade, tambm ele e Mitchell decidiram usar a mesma estratgia ao tomarem rotas diferentes e se reencontrarem 
em Saint Louis, pois as agncias telegrficas eram facilmente interceptadas, e telegramas s ajudariam os Martin a ach-los.
    - Disse que sua prima viaja de trem?
    - Sim, tanto quanto possvel.
    - Meu irmo tambm est indo para Saint Louis de trem, portanto segue a mesma rota que ela.
    - Mas as chances de se encontrarem so muito pequenas.
    -Assim como em nosso caso, mas mesmo assim aqui estamos.
    - Sim. Seu irmo tambm poder provar quem ? Minha prima Maura  mais desconfiada que eu.
    - Ele tem provas de sua identidade. Mas voc no ignora que a rota por ferrovia  a primeira que os Martin iriam checar.
    -Mesmo assim teriam de descobrir qual trem e revistar vrias estaes diferentes ao longo do caminho. Maura  uma mulher delicada, dessas a quem as pessoas se 
sentem compelidas a proteger, e achei que estaria mais segura viajando por locais onde houvesse mais gente.  tambm o caminho mais rpido e, portanto, ficaria menos 
tempo exposta a riscos.
    Tyrone tomou a estudar a resoluta jovem a sua frente. No havia a opo de faz-la mudar de planos, e nem ele e os irmos iriam apreciar obter a vitria sobre 
suas posses se para isso fosse necessrio derramar o sangue de duas mulheres inocentes. Bastavam os que j haviam morrido por isso.
    - Prosseguiremos viagem juntos para Paradise- Tyrone afirmou, de repente, sabendo que no existia outra deciso a tomar.
    - No me lembro de t-lo convidado a me fazer companhia, sr. Callahan.
    Ele se irritou.
    -No convidou, mas h de convir que  o melhor. Os bandidos j conseguiram encontr-la, e pode estar certa de que no desistiro de segui-la. O fato de terem 
ido embora do restaurante no significa que estejam convencidos de que voc no  quem procuram.
    - Viajar acompanhada de um homem por vrios dias pode arruinar minha reputao quando eu voltar para casa.
    - Uma bala no corao arruinar muito mais do que sua reputao.
    Deidre considerou a situao um momento e, ainda que aborrecida, foi obrigada a concordar.
    - Est bem, viajaremos juntos e poderemos proteger um ao outro.
    - timo! Por favor, passe-me os documentos, ento.
    - Para voc partir e deixar-me sozinha crendo que assim livra-me do perigo? De maneira alguma!
    Deidre levou ainda quase uma hora discutindo com Tyrone para convenc-lo de que no lhe daria as escrituras. Ele afinal partiu aps muita insistncia, e Deidre 
pde comear a se preparar para dormir, apesar da dor de cabea causada pela discusso.
    Depois de fazer a higiene pessoal e vestir a pesada camisola de flanela, ela se deitou. Mas os ltimos acontecimentos continuavam passando por sua cabea e a 
impediam de conciliar o sono.
    Agora entendia os perigos a que ela e Maura se expunham. Pelo visto, os Martin no teriam escrpulos para obter o que desejavam e era necessrio ser muitssimo 
cuidadosa dali em diante. Escapara por um triz do ataque no restaurante, e fora pura sorte que justo Tyrone Callahan tivesse ocupado a mesa a seu lado. Ainda que 
no gostasse de admitir, talvez no tivesse conseguido escapar sem a interveno dele.
    Respirou fundo e tentou se acalmar. Agora a expedio para Paradise comeava de verdade, e dias difceis a esperavam. Contudo, seu instinto dizia que os Martin 
no eram os nicos que a ameaavam, pois Tyrone Callahan de alguma forma tambm era perigoso. Afinal, ela concordara em passar as prximas semanas em ntima e perturbadora 
proximidade com aquele homem atraente e forte, de olhos escuros e penetrantes. Incomodada, Deidre reconheceu que Tyrone a abalava e despertava sua feminilidade, 
algo que nunca lhe ocorrera antes; ao menos dessa forma.
    Melhor afastar tamanhas tolices da cabea, decidiu, afundando a cabea no travesseiro para tentar adormecer.
    
    
    Captulo III
    
    A mo spera comprimindo-lhe a boca a fez despertar dos sonhos prazerosos com um homem alto e vigoroso. No mesmo instante, Deidre notou a silhueta de um vulto 
inclinado sobre ela e outro em p, ao lado da cama. Incapaz de gritar, no pensou duas vezes e enterrou os dentes naquela mo que quase a sufocava.
    O estranho soltou um uivo de dor e a soltou. Mas, sem tempo de saborear o triunfo, Deidre saltou do leito, ainda que tentassem agarr-la. Tratava-se de Pete 
e Jim outra vez. Reconheceu-os apesar da escassa luminosidade fornecida pela lamparina sobre a cmoda. No acreditara que os houvesse despistado por completo, mas 
jamais poderia pensar que voltariam a atac-la to rpido! Decerto os Martin ofereciam uma vultosa recompensa em dinheiro, suficiente para justificar a perseverana 
do trabalho.
    Deidre correu para a porta, mas Jim se aproximou de um salto e a impediu de sair. Ela deu-lhe um empurro e, gritando, correu para o banheiro, a nica possibilidade 
de escape que no momento lhe restava.
    - Miservel! - Jim fez uma careta. - Ela vai fazer a cidade inteira acordar e vir ver o que est acontecendo!
    - Ainda podemos revistar as coisas dela, pois com certeza vo bater na porta e perguntar o que acontece antes de arrombar.
    Deidre havia trancado a porta do banheiro, mas aqueles brutamontes poderiam coloc-la abaixo com facilidade. Pior que tudo, estando trancada ali dentro nada 
poderia fazer para evitar que revistassem seus pertences em busca dos documentos que procuravam. Guardara as escrituras num bolso secreto embaixo da saia do vestido 
que usara no jantar e colocara-o sobre o espaldar da cadeira antes de vestir a camisola. Se fosse mesmo esperto, Jim poderia encontr-los. E Pete j tentava forar 
a entrada para o banheiro.
    Deidre encostou-se contra a porta, fazendo fora para impedi-lo de entrar, mas sabia que no daria conta. Aflita, s podia ter a esperana de que seus gritos 
tivessem sido ouvidos e algum acorresse em seu auxilio.
    
    Tyrone despertou num instante, saltou da cama e correu a vestir a cala, adivinhando de onde provinham os berros que o acordaram. Entretanto, a urgncia da situao 
tomava tudo mais difcil, e assim nem pensou em colocar a camisa.
    Deidre no ficara a salvo por muito tempo, pensava enquanto colocava as botas e apanhava o revlver, rezando para que outras pessoas tambm houvessem escutado 
os pedidos de socorro.
    Afinal, o gerente e dois guardas do hotel chegaram, junto com ele,  porta do quarto de Deidre.
    - Depressa! - exigiu Tyrone, ao ver que o gerente no conseguia encontrar a chave certa. - Dar tempo para eles a matarem e escaparem pela janela!
    - Voc a conhece? - perguntou o homem assustado, quando enfim descobriu a chave correta.
    -  minha noiva! - mentiu Tyrone, ainda mais preocupado pelo fato de ela haver parado de gritar. - Ns nos encontramos aqui para eu acompanh-la a Montana, onde 
vamos nos casar.
    - Espero que partam amanh bem cedo. - O gerente abriu a porta.
    No era necessria muita perspiccia para compreender que ambos deixaram de ser bem-vindos naquele estabelecimento, mas Tyrone no iria discutir. Ao irromper 
pelo aposento viu um dos malfeitores saltando pela janela. O pior era que no havia sinal de Deidre, e Tyrone temeu que houvesse sido raptada.
    Um dos seguranas pulou pela janela, e Tyrone ainda avistou dois homens desaparecendo na escurido da rua, com o guarda em seu encalo. Pelo jeito, no parecia 
que a houvessem levado. Ainda bem.
    - Deidre! - Tyrone tornou a inspecionar o quarto, e notou a porta fechada do banheiro,
    - Tyrone?  voc?
    - Sim, Deidre. Abra a porta.
    Aliviada, mas ainda assustada, obedecer-lhe no foi tarefa fcil, e Deidre teve de lutar contra o trinco antes de alcanar xito. Afinal conseguiu sair e, sem 
pensar, atirou-se nos braos de Tyrone. Apesar de ter acabado de conhec-lo e de ele estar sem camisa, Deidre no se conteve de buscar segurana naqueles braos 
fortes, que a ampararam de pronto.
    Sem desfazer o abrao, Tyrone colocou a pistola sobre a cmoda prxima. No se incomodava em oferecer conforto e, sobretudo, no podia negar o prazer que isso 
lhe dava. Apesar da espessa camisola de flanela que Deidre vestia, Tyrone conseguia sentir suas costas frgeis e o contorno dos seios contra seu peito. Sem se incomodar 
com a presena do gerente e do guarda que permanecera ali, passou a afagar os cabelos dela, para acalm-la, e pouco depois o segurana que havia saltado para fora 
retomou pela janela por onde sara.
    - Conseguiu apanh-los? Tyrone, no entanto, j adivinhava a resposta.
    - No. Logo sumiram numa ruela onde os cavalos os esperavam. Mas no creio que levaram algo, a no ser que fosse pequeno o suficiente para caber no bolso.
    - Acha que chamar o xerife vai adiantar? Reconheceu os sujeitos?
    - No. Eram dois estranhos.
    - A menos que faa questo, senhor, suponho que no  necessrio perturbar o xerife. Sem contar que seria embaraoso para sua noiva - apressou-se a interferir 
o gerente.
    - O qu?! - Deidre se espantou com aquilo, mas Tyrone ps o indicador sobre seus lbios e a puxou de novo para si.
    Tyrone continuou a conversa concordando que no seria necessrio chamar o xerife, mas de repente Deidre perdeu o interesse no que ouvia e viu-se concentrada 
na sensao que aquele peito viril e desnudo causava na pele de seu rosto. Alm dos msculos fortes, o que lhe chamava a ateno era o aroma da pele de Tyrone, uma 
mistura de cheiro de homem e gua de colnia, uma combinao que, apesar da situao, despertava seus sentidos. Todavia, o prximo comentrio do gerente do hotel 
afastou tais sensaes involuntrias.
    -Teria sido melhor se a senhorita houvesse deixado clara sua relao com o cavalheiro desde o princpio. Mulheres viajando sozinhas despertam a ateno dos homens, 
e eu quase me recusei a dar-lhe um quarto ao imaginar que estava desacompanhada.
    - Por que voc... - comeou Deidre, afastando-se um pouco de Tyrone, mas ele tornou a cobrir-lhe a boca.
    Ela ainda considerou dar-lhe uma boa mordida, mas, como o gerente e os guardas davam meia-volta para sair, concluiu que seria melhor esperar at estarem a ss 
para ento dizer umas verdades a Tyrone.
    Pouco depois, ele destapou-lhe a boca, e ela deu dois passos atrs.
    - No posso crer que esse gerente atribua a mim a culpa pelo que aconteceu! - exclamou, indignada.
    Tyrone serviu licor no clice que utilizara pouco antes e tornou a se sentar na mesma poltrona.
    - Concordo que no  justo, mas h de convir que no vale a pena explicar nossos motivos para ele. Afinal, nunca mais tornaremos a encontr-lo.
    - No estava considerando dar explicaes! Pensava em lhe acertar um soco na barriga!
    Tyrone riu.
    - Isso s serviria para que ele nos mandasse embora ainda esta noite, em vez de amanh de manh.
    - O gerente pediu que partssemos?! - Deidre indignou-se ainda mais.
    O que os cidados de Saint Louis pensariam se ficassem sabendo que ela fora mandada embora de um hotel?
    - No importa se podemos ou no convenc-lo de que no somos a causa do problema. - Tyrone fez um gesto convidando-a a sentar-se diante dele. - A verdade  que 
o gerente no deseja encrenca e, quer queira quer no, foi isso o que lhe trouxemos. Por esse motivo deseja nos ver pelas costas.
    - Os problemas continuaro nos seguindo quando partirmos. - Deidre aceitou se sentar.
    Ao encarar Tyrone, deu-se conta de seu comportamento escandaloso. Ele no vestia camisa, e ela usava camisola e os cabelos soltos! Mas, reconheceu, fora o novo 
ataque que provocara a situao, e s podia ser grata por Tyrone Callahan no ter perdido tempo se vestindo em vez de correr para acudi-la. Por Deus, as coisas se 
complicavam cada vez mais!
    - Por que esse gerente impertinente achou que eu era sua noiva?
    - Porque eu lhe disse que era. - Tyrone tomou um gole do licor. - Se no o tivesse feito, duvido que teria permitido que eu entrasse aqui para auxili-la. Garanto 
que iria mandar que me vestisse e barbeasse antes de anunciar formalmente minha presena.
    - O que me pergunto  onde estavam esse homem e seus guardas to prestativos quando apontaram um revlver em minha face no restaurante!
    - Creio que escondidos atrs do balco. - Tyrone sorriu. - Acha que foram os mesmos sujeitos que invadiram seu quarto?
    - Sem dvida alguma! Pelo visto no consegui engan-los com meu francs de escola primria.
    - A julgar pelas frases que proferiu, no creio que aprendeu esse francs na escola. - Tyrone piscou um olho.
    -  de baixo calo, reconheo. - Deidre enrubesceu. -Quem me ensinou foi Bill Johnson, que se divertia em fazer palhaadas conosco. Eu lhe agradeo mais uma 
vez, sr. Callahan, mas preciso descansar, pois na certa no me daro muito tempo para tomar o desjejum de manh.
    - Est bem. Em seu quarto ou no meu?
    - Perdo?
    - Prefere que eu fique aqui ou me acompanha para dormir em meus aposentos?
    Apesar de reconhecer que a sugesto no escondia nenhuma pretenso srdida, mas era feita devido s circunstncias, Deidre no se sentiu menos abalada.
    - Voc ir para seu quarto como um bom menino, e eu ficarei aqui.
    Tyrone aproximou-se dela e inclinou-se, colocando as mos em cada brao da poltrona, daquele modo impedindo-a de se levantar. Deidre o fitou de baixo para cima 
com um olhar que no demonstrava raiva, mas sim um certo cansao por ter de insistir, e Tyrone no conseguiu deixar de admirar aqueles cabelos compridos e ruivos 
que caam em ondas espessas sobre os ombros dela. Afora isso, a intimidade da situao, a pouca luz do ambiente e a proximidade daqueles lbios femininos e sensuais 
se juntavam para despertar sua virilidade e excit-lo. No entanto, o dever falou mais alto.
    - Escute aqui, srta. Kenney, at agora eu tenho sido paciente. Aceitei que tomasse as obrigaes de seu pai, permiti que no me entregasse os documentos que 
me pertencem e at mesmo concordei em que siga viagem comigo, apesar das dificuldades adicionais que isso acarretar. Contudo, depois do incidente no restaurante 
e da invaso sofrida em seu quarto, insisto que devemos permanecer juntos o tempo todo. E sinto muito se isso ofende sua delicada sensibilidade. Se deseja me acompanhar 
at Paradise, ter de aceitar as inconvenincias da situao!
    - No se trata de inconvenincias, como o senhor diz, mas de manter minha reputao e evitar um escndalo. J pensou se algum dia ficarem sabendo disso em Saint 
Louis?
    - Prefere ser morta a macular sua reputao?
    Deidre teve de lutar para no lhe dar um empurro ou um soco no rosto. Era a segunda vez que ele usava aquele argumento para dobr-la, e ela estava ficando farta 
disso. E, pelo visto, ainda usaria outras vezes, se necessrio.
    De todo modo, Deidre baixou o olhar e respirou fundo, reconhecendo que talvez o maior problema fosse a perturbao que a proximidade inebriante de Tyrone Callahan 
causava. Cada vez mais se sentia  merc das prprias sensaes, e em breve se tornaria difcil recuperar a calma e o bom senso necessrios para manter a dignidade 
intacta. Mas no poderia explicar tudo isso a Tyrone Callahan.
    - Talvez o senhor no perceba, mas muitas vezes um bom nome  tudo o que uma mulher possui para manter o respeito.
    - Estou consciente disso. Tenha certeza de que quando chegarmos a Paradise j teremos encontrado numa maneira de explicar o que ocorreu de forma a aplacar possveis 
danos a sua honra. Se acontecer de algum em Saint Louis ficar sabendo... Voc est viajando como uma suposta srta. Irene Williams, e nada a impedir de negar rumores 
se mantiver esse nome at o fim.
    - Tem razo - Deidre reconheceu, um pouco abalada por no haver pensado nisso antes.
    - Ainda bem que concorda! E, se olhar o lado bom das coisas, o fato de usar um nome falso lhe dar a oportunidade de tomar atitudes que jamais tomaria. - Tyrone 
tornou a piscar, sentindo uma vontade enorme de roubar-lhe um beijo.
    - Como por exemplo... - Zangada, Deidre comeava a empurr-lo para libertar-se.
    - Algo assim. - E Tyrone colou seus lbios nos dela.
    Tomada de surpresa, Deidre hesitou. Havia beijado alguns homens antes, nada mais que um ligeiro contato de lbios. Portanto, aquela era a primeira vez que algum 
to atraente quanto Tyrone Callahan se inclinava sobre ela para beij-la de verdade, e isso produzia uma estranha mistura de excitao e orgulho.
    Ora, afinal um simples beijo no poder causar tanto mal, ela dizia a si mesma. Ainda mais se fosse rpido e interrompido com uma retirada brusca da parte dela 
a fim de se resguardar.
    Porm, Deidre no estava preparada para o delicioso efeito que os lbios firmes de Tyrone produziam sobre os seus, e muito menos para o que comeou a sentir 
quando ele invadiu sua boca com a lngua. Sem dar por si, tocou-lhe o trax em uma entrega automtica, uma ponta de conscincia ainda fazendo-a pensar que era incrvel 
que um homem pudesse levar uma mulher a perder o controle apenas roubando-lhe um beijo daquela forma.
    - Que doura - ele sussurrou nos segundos necessrios para interromper o beijo e passar a beijar-lhe o pescoo. - Um doce pecado!
    A palavra pecado a fez recobrar o juzo. Desse modo, Deidre o empurrou e se ps imediatamente de p, impondo distncia. Aquele homem era tentador demais, e talvez 
o melhor fosse entregar-lhe os documentos e retornar a Saint Louis na manh seguinte. Entretanto, por mais que o,desejasse, no podia esquecer que Maura seguia viagem 
sozinha.
    De longe, Tyrone conteve o mpeto de tornar a se aproximar para abra-la e beij-la outra vez. Deidre o inflamava, e o fato de ela ter correspondido ao beijo, 
ainda que por um breve instante, demonstrava que tambm o queria. Ele gostaria de explorar a sensualidade entre os dois at a consumao plena, e o fato de Deidre 
ser to inexperiente o excitava ainda mais.
    Deidre teria de ser seduzida aos poucos e com cuidado. Claro que esse no era o pensamento de um cavalheiro, mas o que ela despertava nele era forte demais.
    - Arrume suas coisas e vamos para meu quarto. - Tyrone compreendia que aquele no era o momento apropriado para insistir na intimidade fsica.
    - J decidiu por mim, ento?
    - necessrio, pois agora os pistoleiros sabem onde voc est.
    Deidre considerou a situao. Fora atacada duas vezes e no queria correr o risco de sofrer mais um. Tyrone Callahan podia ser uma ameaa a sua moral e paz de 
esprito, mas pelo menos no a sua vida.
    - Est bem - resolveu, por fim, caminhando para recolher o que necessitaria para pernoitar no quarto dele.
    Sem que Tyrone percebesse, Deidre pegou o vestido que ainda jazia sobre a cadeira e tocou o bolso secreto sob a saia, certificando-se de que, felizmente, os 
documentos ainda estavam ali.
    - No tenho muita escolha - ela continuou, um pouco mais aliviada -, mas  bom que fique claro que no tolerarei mais intimidades.
    Deidre arrumou os pertences pessoais numa pequena valise e, antes de partirem, ainda fitou Tyrone mais uma vez.
    - Compreendeu bem o que eu disse, senhor Callahan?
    - No se preocupe, senhorita. - Ele tomou-lhe a valise das mos e indicou que tomasse a dianteira em direo  porta.
    Tyrone a observou seguir a sua frente pelo corredor, apreciando o movimento que o caminhar produzia em seus quadris e guardando ainda na boca o sabor daqueles 
lbios tenros, que experimentara havia pouco e desejava apreciar outra vez. Se Deidre Kenney pensava que ele no tentaria mais conquist-la, ento, no era uma mulher 
muito esperta. A viagem que fariam juntos para Paradise seria longa e certamente apresentaria perigos, mas, por mais estranho que parecesse, Tyrone no via a hora 
de comear a jornada.
    
    
    Captulo IV
    
    - Pretende nos obrigar a seguir o resto da viagem a cavalo?!
    Tyrone, que checava os animais  venda no estbulo, respondeu:
    - Assim ser mais fcil ludibriar nossos perseguidores. As diligncias seguem rotas fixas e procuram manter a pontualidade, o que facilita o trabalho dos bandidos.
    - Viajar a cavalo em pleno inverno? - insistiu Deidre, desolada.
    - Sim, ser preciso aturar o frio intenso, mas voc ter chance de comprar roupas mais pesadas antes de partimos. E, a menos que haja neve demais ou tempestades, 
poderemos seguir em frente. As carruagens costumam esperar at o clima firmar para retomar viagem.
    - E viajando a cavalo nos tornaremos alvos mais fceis para os pistoleiros contratados pelos Martin. - E Deidre deixou o estbulo.
    O vilarejo estava bastante movimentado naquela manh, com muita gente fazendo compras nas lojas da rua principal. Deidre sempre desejara viajar e conhecer novas 
paragens, mas no daquela maneira. O inverno era a pior estao para faz-lo, e sem dvida tudo o que poderia observar durante o caminho era se estavam sendo seguidos 
ou no. Talvez quando afinal chegassem a Paradise e lhe pagassem a recompensa ela e Maura pudessem programar tirar frias na prxima primavera e ir a algum lugar 
interessante.
    Ouvindo Tyrone barganhar o preo dos cavalos dentro do estbulo, Deidre pensava no que houvera na vspera. Ela preferira dormir numa das grandes poltronas do 
quarto dele, mas ao despertar viu que Tyrone a carregara para a cama, para que dormisse a seu lado. Como se no bastasse, a primeira coisa que enxergou ao abrir 
os olhos foi Tyrone a fit-la com um sorriso, e, assustada, deu um salto que a fez cair no cho. A gargalhada de Tyrone continuava ressoando em seus ouvidos quando 
foi fazer a higiene pessoal e enquanto se vestia no banheiro. E mais tarde, mal tivera tempo de saborear o caf da manh, pois os modos do gerente do hotel deixavam 
bem claro que no os queria ali. O dia no principiara bem, e agora se tornava pior, com a notcia de que seguiriam a cavalo.
    O mais complicado, contudo, era saber o que fazer com Tyrone Callahan ou, mais especificamente, como lidar com os sentimentos que ele lhe despertava. Ainda guardava 
na boca o sabor de seu beijo e sentia o corao acelerar cada vez que recordava o contato fugaz de seus lbios. Talvez seja porque nunca fui beijada, ou talvez pelo 
fato de que me sinto s e desprotegida nesta viagem, pensou Deidre, mas nenhuma das duas possibilidades a convenceu.
    A dura realidade que tentava ignorar dizia respeito ao receio que tinha pelos sentimentos que Tyrone lhe suscitavam, pois eram fortes demais e arrebatadores. 
Afinal, sabia muito pouco sobre o cavalheiro. Ignorava se era do tipo que seduzia mulheres e em seguida as deixava para trs, e tambm costumava se envolver com 
mais de uma mulher ao mesmo tempo.
    Talvez a principal razo fosse to-s o fato de ele ser como era: to lindo e atraente que no teria problemas em conseguir a garota que quisesse. E ainda por 
cima era rico. Um partido bom assim no podia ser confivel, e Deidre tinha conscincia de que no passava de urna descendente de irlandeses, um pouco magra demais 
e residente nos arrabaldes de Saint Louis.
    Homens como Tyrone Callahan buscavam moas da sociedade, educadas em colgios para damas de classe e acostumadas  vida de festas e jantares das metrpoles, 
nas quais podiam exibir vestidos e chapus desenhados pelos mais finos modistas. Jovens como Deidre Kenney acabavam se queimando ao tentar chegar to perto do sol, 
e ela no queria arriscar o prprio futuro por alguns momentos de paixo como amante de Tyrone. Pelo visto, a filha de Patrick Kenney comeava a pagar um preo alto 
para satisfazer o ltimo pedido do pai.
    - Agora vamos comprar tudo de que necessitamos. - Tyrone sara do estbulo sem que Deidre notasse. - Mantimentos, roupas quentes e cobertores.
    - No podemos mesmo continuar em carruagem?  possvel que os bandidos no consigam mais nos alcanar.
    - Conseguiram at agora, no ?
    Tyrone sempre utilizava argumentos irrefutveis, mas Deidre resolveu insistir.
    - No estou convencida de que cavalgar por campos gelados seja uma maneira melhor de despistar os pistoleiros contratados pelos Martin, e talvez at mesmo acabemos 
por ajud-los ao seguir por paragens ermas e selvagens. Talvez acabemos reduzidos a cadveres que s sero descobertos na primavera, quando o calor derreter a neve.
    - Ora, no seja to pessimista! No tenho inteno de morrer antes de chegarmos a Paradise.
    - Teremos de nos cobrir com muitas camadas de l dos ps ' cabea se no quisermos congelar. Vamos parecer dois monstros montados a cavalo.
    - Necessitamos de calor, e no de estilo.
    -  preciso ao menos ter qualidade. Vou escolher minhas prprias roupas, se no se importa. - Deidre apontou o cobertor que a agasalhava.
    Tyrone sorriu e a tomou pelo brao para conduzi-la a uma loja prxima que oferecia roupas para homens e mulheres. Ao entrarem, logo avistaram um grosso casaco 
feminino que encantou Deidre.
    - Acha que este casaco protege bem da neve?
    - O inverno deste ano tem sido suave at agora - afirmou Tyrone. - Sim, mas pode mudar de uma hora para outra.
    - essa a razo pela qual seguiremos por trilhas onde podemos contar com abrigos para cada pernoite.
    -Pelo visto voc j tinha tudo planejado... - Deidre comeou a inspecionar algumas camisolas de flanela grossa.
    - No contava com sua companhia, mas de fato planejei tudo antes de partir de Paradise. No se esquea de apanhar meias compridas de l. - E Tyrone a deixou, 
dirigindo-se para a seo masculina.
    Deidre suspirou ao pensar no arsenal de trajes pesados que teria de usar, certamente o oposto das vestimentas que tornam uma mulher atraente. As poucas curvas 
de seu corpo iriam desaparecer quando encobertas por agasalhos que pudessem resistir ao vento e temperaturas baixas das pradarias congeladas.
    Mas, afinal de contas, por que se preocupar com isso? Talvez porque Tyrone fosse o homem mais atraente que j encontrara, respondeu para si mesma. No entanto, 
havia pelo menos uma vantagem em usar tantas roupas grossas: se ele tentasse seduzi-la, ia demorar tanto at conseguir desnud-la que lhe daria a chance de recuperar 
a razo. Contanto que ela no o ajudasse a desabotoar tantos botes, refletiu com um suspiro.
    Quando afinal compraram todo o necessrio, Tyrone a reconduziu de volta ao estbulo e indicou uma saleta onde Deidre poderia tirar o vestido e substitu-lo pelas 
roupas mais quentes recmadquiridas. Para alegria dela, fora possvel encontrar saias de l grossa que possuam bolso interno para esconder os documentos.
    Ao sarem do vilarejo e tomarem a trilha que seguia a perder de vista pela pradaria, Deidre concluiu que em breve devia revelar a Tyrone onde guardava as escrituras. 
J no tinha dvidas de que ele era quem afirmava ser e, mais do que isso, agora no poderia partir e deix-la sozinha no agreste selvagem. Contudo, e ainda que 
parecesse esquisito, o fato de guardar os papis escondidos na saia parecia reafirmar o que prometera ao pai.
    Fitando o campo gelado a sua frente, Deidre lembrou-se de Maura. Se o destino fosse justo, o irmo de Tyrone teria encontrado sua prima e a protegeria at atingirem 
Paradise. No era fcil admitir, mas a companhia de um homem ajudaria ambas a atingir seu destino ss e salvas. Ainda bem que, quanto mais se aproximassem de Paradise, 
menor o risco de os Martin perpetrarem mais assassinatos, pois as autoridades locais poderiam vir a saber com mais facilidade.
    - Preocupada com sua prima? - perguntou Tyrone, vindo cavalgar a seu lado.
    - Sim. Apesar de saber que meu pai e Bill morreram por causa desses documentos, jamais considerei que o mesmo pudesse ocorrer conosco. Creio que no seja o tipo 
de coisa que nos ocorre antes de algum nos apontar uni revlver contra o rosto.
    - Tem razo. A violncia parece um assunto distante enquanto no nos atinge diretamente.
    - Talvez eu tenha sido tola ao achar que os Martin no suspeitariam que o servio fosse levado adiante por mulheres.
    - Ou ao acreditar que seriam cavalheiros o suficiente para no atacarem senhoritas?
    - Sim, isso tambm, apesar de reconhecer que  um pouco estpido pensar dessa forma. Mas no h como voltar atrs, nem h nada que possa fazer por Maura no momento, 
a no ser preocupar-me.
    - Afligir-se por sua prima no poder ajud-la em nada. O melhor  se concentrar em voc mesma e em sua segurana, ainda que parea uni pouco egosta diz-lo. 
Se Maura tardar a chegar a Paradise, a sim voc poder fazer algo concreto.
    - Em minha opinio, ao alcanarmos Paradise, os Martin sabero que perderam a parada, e a ameaa sobre Maura ser menor. Espero que minha prima encontre seu 
irmo, de qualquer forma. - Deidre fitou as nuvens cinza. - Ele tambm tem um plano de escape para o caso de a viagem por trem se tomar perigosa?
    - Pode apostar. Escolhemos rotas que usamos h muitos anos, nas quais temos amigos e pequenos abrigos que construmos nos locais mais ermos. - Tyrone esboou 
um sorriso largo ao ver o espanto de Deidre. - Vendemos e transportamos cavalos durante anos. Meu pai tinha negcios em povoados diferentes e preferia tomar trilhas 
isoladas, pois se sentia mais seguro. Sossegue, sempre teremos onde nos abrigar se o clima ficar ruim demais.
    - Considera o tempo bom agora, suponho - replicou Deidre, sabendo que o dia cinzento e escuro, e a temperatura abaixo de zero que enfrentavam no momento, ainda 
poderiam piorar com tempestades de neve e ventanias.
    Tyrone respondeu com um dar de ombros, e ambos seguiram cavalgando calados.
    Em breve fizeram uma parada rpida para comer os sanduches que haviam comprado na cidade e para os cavalos descansarem um pouco, mas logo retomaram a viagem.
    Deidre detestava o frio e, mesmo nem toda a l que abrigava seu corpo bastava para aquec-la. Gostaria muito de achar uma maneira de fazer os Martin pagarem 
por obrig-la a passar por tanto desconforto.
    O sol se punha quando afinal atingiram uma casinha de madeira, que possua um nico aposento e um coberto ao lado, para acomodar os cavalos. Aps cuidarem dos 
animais, Tyrone a conduziu para dentro e usou a pilha de madeira ao lado da lareira para acender o fogo. Havia uma bomba de gua e duas poltronas, mas somente uma 
cama. Deidre no sabia como abordar o assunto do arranjo que fariam para dormir.
    - Aqui dentro vai esquentar num instante- explicou Tyrone, aps pegar gua e j comeando a preparar caf na lareira, que oferecia alguns suportes de ferro para 
pendurar panelas e cozinhar.
    Era to fcil adivinhar os pensamentos de Deidre, ele refletiu. Ela era transparente como cristal, e naquele momento se afligia com a noite que tinham pela frente. 
A cabana aquecida e perdida no meio da pradaria inspita era o local ideal para momentos romnticos e sensuais, mas Tyrone sabia que era cedo demais para tomar alguma 
iniciativa.
    - Pode ficar com a cama, Deidre. H um saco de dormir enrolado sob o travesseiro, e  o suficiente para mim. - Separou o feijo e o bacon, que pretendia preparar 
para o jantar. - Do lado de fora, l atrs, h um pequeno reservado murado para voc fazer suas necessidades.
    Deidre corou, mas resolveu sair logo para fazer uso do tal lugar. Essa era a prxima questo que tinha em mente, apesar de tambm no haver ainda chegado a uma 
concluso sobre como abordar o assunto. A verdade era que viajariam juntos por dias, e tinha de aprender a enfrentar tais temas com mais facilidade.
    O jantar de feijo com bacon foi simples, mas suficiente para aliment-los a contento. Contudo, enquanto estava entretida em lavar os pratos e panelas, Deidre 
no conseguiu deixar de pensar que ainda que bacon com feijo fosse uma comida decente, em breve se tornaria tediosa se tivessem de repeti-la com freqncia.
    O prximo dilema se apresentou quando Deidre terminou de arrumar tudo e resolveu que era hora de deitar. No poderia ir para a cama usando um vestido to grosso, 
combinao e meias de l, mas, infelizmente, no havia outro quarto onde pudesse se trocar e vestir a camisola de flanela. Mais uma vez parecendo adivinhar seus 
pensamentos, Tyrone tomou a iniciativa quando a viu retirando as coisas da valise.
    - Vou me virar para que possa trocar de roupa - disse, indo se sentar na pequena poltrona diante da lareira e de costas para ela.
    Deidre hesitou por um momento, mas no havia outra opo.
    Retirou o vestido e as meias de l e vestiu a camisola de flanela grossa. Depois de dobrar as roupas com cuidado e coloc-las no p da cama, ela pegou a escova 
e, ainda hesitante, sentou-se na outra poltrona, ao lado de Tyrone, para escovar os cabelos em frente ao fogo.
    Tyrone a observou soltando os cabelos e passando a escova pelas mechas sedosas que caam sobre seus ombros, at o meio das costas, refletindo que Deidre no 
imaginava corno aquele gesto era sensual e do efeito que poderia exercer em um homem. A cada instante crescia seu desejo de tocar os fios macios e sentir o perfume 
suave que exalavam.
    - Posso escovar seus cabelos, se quiser - ofereceu-se ele finalmente, decidindo que poderia ao menos realizar parte de suas fantasias. - No deve ser fcil escovar 
cabelos assim compridos, atrs das costas.
    - Maura e eu escovamos o cabelo uma da outra antes de dormir - disse Deidre, pensando quantas regras de conduta ainda quebraria at o fim da viagem. - Voc sabe 
escovar os cabelos de uma mulher?
    - No deve ser muito diferente de escovar o rabo de um cavalo - replicou Tyrone sem atentar para a falta de delicadeza do que dizia.
    - Suponho que no - concordou Deidre sorrindo, sabendo que ele no dissera aquilo por mal.
    Contudo, ela no imaginara sua prpria reao ao toque das mos de Tyrone. O deslizar suave da escova fazia seu corao acelerar, e a proximidade dele a perturbava 
imensamente. Ao perceber que seus seios comeavam a reagir, Deidre cruzou os braos sobre o peito. Tyrone escovou-lhe os cabelos por mais algum tempo e, para surpresa 
de Deidre, comeou a fazer uma trana, o que s adiava o momento de se distanciarem. Quando terminou. Tyrone deu um passo para o lado.
    - Obrigada - disse Deidre, levantando-se e caminhando apressada em direo  cama.
    Tyrone viu-a se deitar e puxar as cobertas sobre si, de tal maneira que somente o topo da cabea ficou visvel. A frustrao de j no t-la to perto de si, 
como pouco antes, foi substituda pelo divertimento, e ele sorriu diante da atitude recatada da companheira de viagem e da certeza de que o desejo que crescia em 
seu ntimo seria em breve satisfeito.
    Sem dvida Deidre tambm sentia atrao, isto ficara claro quando ele lhe escovara os cabelos pelos sutis sinais que ela emitia, pela respirao acelerada, pelos 
olhos que cerrava de vez em quando como que para se entregar a seu toque. Certamente ela agora se escondia embaixo dos cobertores no tanto pelo receio do que ele 
poderia tentar fazer, mas pelo medo das prprias sensaes que no conseguia evitar.
    Tyrone suspirou fundo, estendeu o saco de dormir perto da fogo e preparou-se para descansar, no sem antes tirar a cala e a blusa de l que vestia e ficar s 
com a cueca e a grossa camiseta de mangas compridas.
    - Boa noite, Deidre.
    Impossvel no deixar de notar o tom divertido em que ele falava e Deidre sentiu-se um pouco idiota por correr a se esconder sob as cobertas como uma adolescente 
tmida. Tyrone devia ter muita experincia de vida, mas, afinal, que pensasse o que quisesse! A nica coisa que ela gostaria era parar de ter reaes infantis que 
a envergonhassem durante o resto da viagem.
    - Boa noite, sr. Callahan - ela retrucou, ouvindo a suave risada que Tyrone no conseguiu ou no quis esconder.
    - Bons sonhos - ele ainda disse, bem-humorado.
    - Ora, cale a boca e durma de uma vez! - replicou Deidre, agastada por no conseguir esconder a imensa timidez que ele causava e que a fazia se sentir boba corno 
uma menina.
    
    
    
    
    Captulo V
    
    Fazia j trs dias que viajavam a cavalo, e ela estava exausta. Na noite anterior, mal conseguira manter-se acordada para desfrutar o delicioso jantar caseiro 
da hospedaria, e durante toda a refeio s conseguia pensar em ir se deitar. E agora algum tentava despert-la com um forte aroma de caf em suas narinas.
    Tyrone, Deidre se lembrou de repente, lembrando-se tambm de que ele afirmara que eram casados ao se registrarem, para que os colocassem no mesmo quarto.
    Uma certa mo tocou seus cabelos com suavidade, e ela deixou escapar um murmrio de satisfao. Tyrone se punha outra vez a perturb-la com carcias inoportunas, 
algo que vinha fazendo com demasiada freqncia ultimamente. Ainda sonolenta, era fcil permitir aquele contato prazeroso, mas quando Tyrone se deitou a seu lado 
no leito, ela decidiu que era hora de parar.
    - Saia j de minha cama! - Afastando a sonolncia, Deidre se ps imediatamente desperta. - Pare com isso!
    - Achei que um pouco de carinho a ajudasse a acordar de bom humor. O cheiro de caf parecia estar causando um bom efeito em voc.
    - Um pouco de carinho pode causar mais do que apenas bom humor. O que est fazendo  imprprio, Tyrone. Afinal, estou deitada e de camisola.
    - Enrolada nessa tenda de l grossa que voc chama de camisola e embaixo de tantos cobertores, est parecendo mais a uma mmia.
    A frustrao dele quase a fez sorrir.
    - Melhor assim - continuou Deidre, mas ele passou a dar-lhe pequeninos beijos na orelha. - Pare com isso, j disse!
    Deidre desviou o rosto e fez meno de se erguer, mas Tyrone foi mais rpido e, com um movimento, a reteve e fez se virar. No momento seguinte, Tyrone se deitava 
sobre ela e a fitava nos olhos, sorrindo. Apesar dos vrios cobertores que os separavam, o peso dele fazia o corao de Deidre acelerar, e o sorriso que ele exibia 
quase transformava tudo numa brincadeira inocente.
    Entre brincalho e srio, ele sempre tentava acarici-la ou seduzi-la. E o maior problema era que Deidre sentia-se cada vez mais impotente para se recusar e 
obrig-lo a se afastar. Se continuasse assim, em breve entregaria tudo o que Tyrone pedisse!
    Ele comeou a beij-la com suavidade nos lbios, e Deidre no conseguiu deixar de abrir a boca, num gesto receptivo. Deus, como era difcil resistir aos carinhos 
daquela lngua morna e doce! Contudo, agarrando-se ao pouco de vontade prpria que ainda lhe restava, Deidre rejeitou a idia e virou o rosto. Se algum dia resolvesse 
se entregar a um amante, teria de ser fruto de uma deciso clara e consciente, algo que no podia almejar naquele estado de sonolncia ao acabar de acordar.
    Tyrone enfiou as mos sobre os cobertores e passou a toc-la nos seios, despertando a paixo de Deidre, que admitiu que no seria capaz de tomar uma deciso 
racional caso ele prosseguisse com aquilo.
    - Tyrone... - Tentou soar firme, mas sabia muito bem que seu tom de voz soava mais como um murmrio lascivo.
    Ele comeou a beijar seu ombro e, um pouco assustada, Deidre percebeu que Tyrone desabotoara alguns botes da camisola. Pior que isso, ele agora puxava a camisola 
ainda mais, e ela sentiu o ar frio alcanando seu seio, em contraste com o calor interior.
    - Doce como mel... - murmurou Tyrone, depois de lamber-lhe o mamilo.
    Aquele toque mais ousado que qualquer outro at ento a invadiu como um sonho de sensualidade, fazendo seu corpo querer mais e mais. Entretanto, o mesmo toque 
lhe imps que tinha de recus-lo de imediato, ou em breve perderia a capacidade de faz-lo.
    Assim, com um movimento brusco, Deidre conseguiu sair de baixo daquele corpo sedutor e se recostou contra a cabeceira, fitando Tyrone sem saber que o brilho 
de seus olhos estampava o desejo imenso que sentia. Ele tambm a fitava, mas no nos olhos, e Deidre levou alguns segundos para perceber que Tyrone mirava seus seios, 
naquele instante totalmente expostos, talvez pelo movimento que ela fizera para se esquivar.
    Irritadssima, Deidre tornou a puxar a camisola, tentando aboto-la outra vez, mas o nervosismo no deixava seus dedos completarem a tarefa a contento.
    - Vou tomar o desjejum - disse ela, sentindo-se grata ao notar o tom decidido com que falava, apesar de ter conscincia de que ainda no conseguia esconder a 
excitao e confuso que as carcias 1lie causaram.
    Depois de hesitar uni momento. Tyrone afinal deitou-se do outro lado, mas continuou a olh-la. Deidre ficou de p, vestiu o grosso roupo de flanela e dirigiu-se 
para o banheiro, um luxo extra que fizera o aposento quase dobrar de preo quando se registraram na hospedaria.
    Ao menos consigo me controlar com mais facilidadese no a vejo, refletiu Tyrone. Era incrvel que pudesse desejar tanto uma mulher que conhecia havia poucos 
dias, mas no tinha como neg-lo. E, se no conseguisse possu-la de uma vez por todas, na certa chegaria a Paradise se arrastando pelo cho como um co mendicante.
    Tyrone apanhou uma das xcaras de caf que acompanhavam o desjejum que fora trazido para o quarto. Sorveu um longo gole do lquido fumegante, e um certo remorso 
o invadiu ao tornar a depositar a xcara sobre a mesa. Tinha de reconhecer: Deidre era uma moa virgem, e o que ele lhe pedia no era pouco. Afinal, desistir da 
inocncia e do bom nome em troca de algumas noites de paixo sem nenhuma promessa para o futuro no era justo. Na verdade, o que ele pedia era que Deidre negasse 
tudo o que aprendera at ento e desistisse dos princpios morais com os quais crescera e se habituara a viver. Todavia, tal conscincia Po bastava para diminuir 
a volpia que sentia, nem aplacava seu fogo.
    - Ora bolas, poderei me casar com ela se for necessrio! - sussurrou, contrafeito, e sentou-se afn de estar pronto para comer quando Deidre retornasse.
    - Disse algo? - Deidre saiu do banheiro naquele exato momento e se dirigiu para a cadeira oposta.
    - Reclamava do clima ruim. - Desviando o olhar, Tyrone concentrou a ateno nos ovos mexidos e nas torradas com manteiga e gelia sobre a bandeja. - Est nevando.
    - A neve chegou durante a noite. - Deidre se ps a comer antes que a refeio matinal esfriasse e perdesse o sabor. -Acha que teremos de esperar muito antes 
de podermos seguir viagem?
    - Creio que no. No se trata de tempestade, e j est nevando menos do que uma hora atrs. - Tyrone sorveu outro gole de caf. - Mas penso que teremos de aguardar 
at amanh, de qualquer maneira.
    - No vou reclamasse puder-tirar um dia de descanso. Talvez possa aproveitar para visitar algumas lojas.
    - Necessita de algo`? - Tyrone apanhou uma torrada.
    - No, de fato, mas ser Natal quando Maura e eu nos reencontrarmos em Paradise, e gostaria de dar-lhe um presente.
    -Desde que no seja grande, nem difcil de carregar. Enquanto isso, darei uma volta pelas redondezas para me certificar de que no estamos sendo seguidos. Quanto 
a voc, no saia da cidade de maneira alguma. E se notar que desperta o interesse de algum, entre imediatamente numa loja ou local pblico onde haja mais gente, 
para que possam proteg-la.
    Deidre recordou que nenhum bom sainaritano pareceu se incomodar quando a atacaram no restaurante, mas preferiu nada dizer a Tyrone, pois caso contrrio ele poderia 
querer que ela ficasse confinada no quarto.
    Olhando pela janela, constatou que no ventava, e a neve caa suave, tornando possvel pesquisar diversas lojas at encontrar o presente perfeito para Maura. 
Afinal, naquele ano mais do que nunca sua prima necessitava de algo para alegrar um pouco o corao.
    Tyrone havia partido quando Deidre finalmente acabou de se vestir no banheiro, e estava pronta para deixar o quarto. Depois de tantos dias juntos, parecia estranho 
sair sozinha, mas era melhor assim. Estava precisando de algumas horas a ss, longe daquele homem to lindo e daqueles beijos que a descontrolavam.
    Saiu para a rua e sentiu o ar frio bater em seu rosto. Os flocos branquinhos caindo eram macios e davam uma atmosfera calma ao vilarejo.
    Um pouco introspectiva, Deidre comeou a pensar que o que mais a incomodava era o quanto Tyrone a perturbava e despertava seus sentidos, pois isso significava 
que ao menos parte de seu corao j havia se rendido ao companheiro de viagem. Tinha certeza de que os rgidos princpios morais sob os quais fora educada moldaram 
sua personalidade e seriam suficientes para faz-la ignorar a seduo de Tyrone e no se deixar seduzir por completo. Contudo, o verdadeiro perigo que a ameaava 
parecia vir de outra parte, dando-lhe razo para manter aquele homem a uma distncia segura.
    Tyrone poderia roubar muito mais que sua inocncia, caso ela no fosse cuidadosa. Mesmo perdendo a virgindade, ainda poderia seguir adiante em busca de uma vida 
que envolvesse casamento e filhos, mas apaixonar-se por Tyrone a sentenciaria a uma existncia solitria e vazia depois que ele a abandonasse. Entregar seu corao 
quele homem aps algumas noites de paixo e satisfao corporal causaria danos irreparveis.
    Contudo, ser que era mesmo correto pensar assim?
    Atravessou a rua e seguiu adiante por alguns metros, parando para admirar os lindos chapus expostos na vitrine de uma loja de artigos femininos. Ainda que absorta 
com os lindos chapeuzinhos enfeitados com plumas, ps-se a imaginar que um provvel futuro remorso por no haver se entregado a algo que desejava agora, podia vir 
a ser ainda mais funesto e difcil de superar do que a perda da inocncia. Mesmo que desposasse outro homem mais tarde, como ter certeza de que no seria um mero 
fantasma dividindo o leito consigo quando na verdade continuaria amando Tyrone? Sucumbir ou no  seduo talvez fosse um mal menor quando comparado  eterna tristeza 
que poderia estar arriscando a carregar dentro de si.
    Portanto, por que no deixava de se preocupar e aproveitava o que a vida lhe oferecia naquele momento?
    Confusa, respirou fundo e resolveu entrar no estabelecimento para ver se havia algo em liquidao.
    Na verdade, ainda restava a possibilidade de que os sentimentos de Tyrone viessem a se aprofundar e ele se sentisse envolvido de verdade com ela quando chegassem 
a Paradise. Ser que aquilo era absurdo demais para ser considerado? Ser que no valia a pena apostar nisso e correr o risco?
    Alguns artigos de renda finamente bordada lhe chamaram a ateno, mas ao se aproximar para observ-los de perto, Deidre fez fora para mergulhar no prprio corao 
e descobrir o que sentia mesmo por Tyrone Callahan, e se tal sentimento era consistente o bastante para faz-la correr o risco de apostar no futuro. Estar viajando 
com um nome falso e acompanhada de um homem j seriam motivos suficientes para destruir sua reputao caso algum dia algum viesse a saber disso em Saint Louis. 
Seria to errado cometer um crime pelo qual poderia ter de pagar mesmo sem t-lo cometido?
    - Minha mulher  quem faz esse trabalho - disse algum a seu lado, sem esconder uma ponta de orgulho.
    Ao se virar, Deidre sorriu para o senhor de cabelos grisalhos que a fitava.
    - muito lindo! To bom quanto uma pea de renda importada da Frana.
    Deidre decidiu comprar alguns pequenos cortes de renda, pois Maura adorava se vestir bem e enfeitar os vestidos com adornos finos e delicados, sem contar as 
roupas de baixo que ousava escolher para si. Sabendo ser necessrio no fugir ao costume de barganhar, Deidre procurou obter um preo mais favorvel, e o senhor, 
sorridente, fez-lhe um desconto.
    Antes de partir, Deidre ainda escolheu para si duas lindas combinaes ornamentadas com a mesma renda e, enquanto esperava o troco, perguntou-se se chegara a 
alguma concluso sobre corno agir com Tyrone. Sem uma reposta clara e ainda que no quisesse admitir, teve de reconhecer que no havia razo para adquirir combinaes 
novas se pretendia mant-las escondidas sob agasalhos grossos e casacos de l.
    Passava das doze horas quando retornou ao hotel. Sobre a mesa, um bilhete de Tyrone explicava que ele levara um dos cavalos para ter a ferradura reparada.
    Deidre fez uma refeio leve e tomou um longo banho quente de imerso. Em seguida, colocou uma das combinaes, vestiu o roupo por cima e sentou-se na cama 
para enxugar os cabelos com a toalha.
    - Queria que estivesse aqui, minha querida Maura... Estou to confusa! Devo ou no devo? Ser que a imensa atrao que sinto por este homem tm origem no perigo 
inerente a esta viagem arriscada?
    Quando acabou de secar a cabeleira. Deidre se deitou e cerrou os olhos. Tantos pensamentos e dvidas a exauriram, e comeou a se sentir sonolenta. Talvez fosse 
mesmo melhor dormir um pouco, Isso provavelmente a ajudaria a espantar as questes sem resposta que fazia a si prpria.
    - Esta ferradura ainda duraria muitas milhas - sentenciou o proprietrio do estbulo examinando a pea de ferro que tirara da pata do cavalo.
    - Talvez tenha razo. - Tyrone segurava as rdeas do animal. - Mas o terreno em que viajamos  selvagem e as trilhas no so cuidadas como as estradas por onde 
transitam as carruagens.
    - Voc  louco o suficiente para viajar pelas pradarias durante o inverno?!
    - No tenho outra opo. - Tyrone deu de ombros. - H certas pessoas que no desejam que eu volte para casa e, de qualquer forma, o inverno est suave.
    - Mas sabe que pode mudar de uma hora para outra. E garanto que no vai gostar de estar naquele lugar ermo se isso acontecer.
    - Conheo bem o caminho. Minha famlia utiliza as trilhas h muitos anos, e sempre terei onde me abrigar se o tempo piorar demais. Por acaso viu algum estranho 
pelas redondezas? Alm de mim,  claro - acrescentou com um sorriso.
    - No, apenas aqueles que esto hospedados no hotel. No recebemos muitas visitas por aqui, muito menos nesta poca do ano.
    Tyrone sentiu-se feliz ao ouvir aquilo, que s confirmava as averiguaes que fizera. No entanto, seria recomendvel que ele e Deidre esperassem um pouco antes 
de seguir por trilhas cobertas de neve fresca. De qualquer modo, era necessrio esperar parar de nevar, pois o frio podia ser ainda mais perigoso que os pistoleiros 
contratados pelos Martin. Ao retomarem viagem, o local mais prximo onde poderiam encontrar abrigo para pernoitar estava a pelo menos doze horas de cavalgada.
    Tyrone observava o trabalho do homem compreendendo que, apesar de no ser um reparo intil, de fato o animal podei-ia ainda ter cavalgado muitas milhas com a 
ferradura antiga. Na verdade, a deciso de troc-la revelava covardia de sua parte, pois agora compreendia que fizera aquilo apenas para adiar o retorno para o hotel. 
A questo era que passar horas e horas dividindo um quarto aconchegante e quente com uma mulher que seu corpo desejava possuir, mas no podia ter, era uma tortura 
maior do que estava preparado para suportar.
    Estaria se sentindo assim por no se deitar com uma mulher h tempos? O vilarejo tinha um saloon onde poderia pagar uma mulher, por alguns momentos de satisfao, 
mas, reconheceu, isto no o aliviaria em nada. Sabia que iria se sentir ainda mais vazio depois de consumar o ato com uma garota qualquer, e a paixo por Deidre 
certamente se tornaria ainda maior assim que tomasse a v-la.
    Depois de pagar pelo servio, no havia mais como escapar, pois era hora de voltar. A perspectiva de passar horas ao lado de Deidre o perturbava e ele tentou 
fazer uma lista mental das mulheres pelas quais at ento se sentira atrado. A lista era pequena e resumia-se s esposas e parentes de alguns amigos e conhecidos, 
mas nenhuma delas o fizera sentir o que agora sentia. Mais do que somente desejo, ele apreciava a companhia de Deidre. Admirava sua determinao em cumprir a promessa 
feita ao pai e a maneira resoluta como enfrentava as dificuldades e os riscos da viagem, mesmo sendo uma mulher de aspecto doce e delicado. Admitir que se sentia 
dessa forma, talvez significasse algo importante, mas Tyrone no sabia definir exatamente o que era, e talvez o fato de conhecer inmeras mulheres casadas que eram 
infiis, o impedisse de avanar em fantasias tolas.
    Ao entrar no quarto do hotel, Tyrone quase deu meia-volta e tornou a sair. Deidre, adormecida sobre o leito, usava uma bela combinao enfeitada com rendas sob 
o roupo, que sem dvida se abrira quando ela se mexeu durante o sono e assim deixava entrever a pea. Sua pele era alva, e as pernas longas, bem torneadas e delicadas, 
estendiam-se descuidadas sobre a cama.
    Sem pensar duas vezes, fechou e trancou a porta. Em seguida, tirou o chapu, o casaco e o cachecol de l e os jogou sobre uma das cadeiras ao lado da mesa. Aproximou-se 
do leito devagar e sem fazer rudo, parou para analisar Deidre.
    Os lbios dela estavam entreabertos, e a respirao fazia seu peito se erguer e baixar, num movimento que se tornava ainda mais sensual pela situao de fragilidade 
em que ela se colocara sem perceber. Seus seios semi-escondidos pelo tecido leve e pela renda transparente eram como duas flores alvas que ofereciam um perfume dos 
anjos. Um dos braos se dobrava  altura da cabea, e o outro repousava sobre seu ventre desprotegido.
    - Voc no presta, homem. Veja o que est pensando agora! - Tyrone admoestou-se. Tirou as botas e a camisa, e desabotoou o cinto da cala. - Tomara que ela lhe 
d um tiro, pois  isso o que merece.
    J tivera a oportunidade de descobrir que Deidre era vagarosa para afast-lo quando adormecida, e observ-la naquele sono lindo que a tornava vulnervel era 
demais para ele, pois transtornava seu bom senso. Ainda que um sentimento de culpa comeasse a se imiscuir no enorme desejo e ardor que experimentava, Tyrone no 
conseguiu se conter. Afinal, se aproximou ainda mais, inclinou-se e deu-lhe um beijo suave e terno na face. Agora, s podia ter a esperana de que dessa vez Deidre 
no somente fosse tomada de surpresa pela prpria paixo e necessidade de entrega, mas que continuasse se entregando mesmo aps despertar.
    
    
    Captulo VI
    
    Deidre virou um pouco a cabea, criando mais espao para aqueles lbios tocarem sua orelha, e deslizou a mo suavemente at tocar um corpo quente e caloroso. 
O sonho daquele momento era sem dvida muito realista e pleno de detalhes sensuais. Na fantasia onirica, braos fortes a enlaaram, e ela se encolheu para ajustar-se 
ao seu aconchego.
    Entretanto, a friagem atingindo seu peito comeou a despertla, e algo lhe disse que aquele sonho era concreto demais. De repente sentiu duas mos enormes segurando-lhe 
o rosto e lbios calorosos se colando aos seus. Ainda meio adormecida, aproximou os braos um do outro e sentiu a pele desnuda de costas largas e musculosas de encontro 
a suas mos. Jamais tivera sonhos assim, e no podia negar que eram uma experincia fascinante.
    - Deidre... - Tyrone beijou-lhe a ponta do nariz.
    Aquele murmrio soava muito real para ser uni mero sonho, mas Deidre ainda tentou se convencer de que tudo no passava de uma fantasia sonolenta. Entretanto, 
uma voz em sua mente comeou a afirmar que era intil mentir para si mesma, pois no estava mais dormindo, ainda que no estivesse totalmente desperta. Se erguesse 
as plpebras e aceitasse a realidade do que se passava, teria de tomar unia deciso. Contudo, era mais fcil manter os olhos cerrados e se convencer de quee dormia, 
entregando-se quela paixo e voluptuosidade at que fosse tarde demais para recuar. Covarde!, gritou a voz interior, sem aviso.
    - Deidre, abra os olhos, por favor. - Tyrone afastou-lhe as alas da combinao de renda. - No consigo ser to desgraado a ponto de tirar proveito de uma moa 
adormecida, e necessito que voc olhe para mim.
    - Se abrir os olhos, sou capaz de abrir tambm a boca e dizer no.
    - Como poderia dizer no a isto? - E ele terminou de descer as alas num gesto terno, ainda que sedento.
    Corando, Deidre o fitou e, como suspeitava, deparou com Tyrone admirando seus seios desnudos. As pupilas dele brilhavam com um desejo imenso e quase desesperado, 
ainda que isso no o tornasse menos doce ou cuidadoso. Tambm ela se sentia presa de uma enorme vontade, e agora se perguntava se algum dia conseguiria experimentar 
algo to intenso com outro homem. Por certo que no, respondeu outra voz em seu ntimo, fazendo Deidre pensar que talvez a deciso derradeira j tivesse sido tomada.
    Ambos se olharam ternamente, e Tyrone soube que ela o desejava. Entretanto, a mera entrega no seria suficiente; ele necessitava ouvir que tambm Deidre estava 
de acordo em fazerem amor. No se sentia bem por seduzi-la enquanto dormia, e necessitava da confirmao consciente de uma mulher desperta e dona de si, deixando 
claro que se dispunha a prosseguir.
    - Seus seios so lindos e quero beij-los e acarici-los, Deidre - continuou Tyrone, beijando-a na base do pescoo e sentindo como isso a arrepiava. - Mas sei 
que no poderei parar mais se o fizer. E voc tambm no h de querer, minha querida.
    A arrogncia daquela frase a incomodou, quase a dispondo a contradiz-lo s para mostrar que tambm tinha vontade prpria e decidia os rumos da prpria vida.
    - Creio que ns dois podemos parar se quisermos.
    Surpreso, Tyrone ergueu a cabea e, a fitou com olhos penetrantes e profundos.
    - No desejo sedusi,-la enquanto dorme e coloc-la num estado no qual no possa mai, recusar minhas carcias, Deidre. Necessito que me diga que tamhn1 deseja 
i sso e que, assim como eu, tambm necessita consumar essa paixo que nos une e no conseguimos negar. Preciso que diga sim para mim olhando-nie nos olhos.
    Aquela no deixava de ser uma maneira de colocar a responsabilidade sobre os ombros dela, refletiu Deidre. Contudo, compreendia o pedido de Tyrone. Ela sempre 
se negara, desde o primeiro beijo que ele lhe roubara, e agora a capitulao parecia rpida e fcil demais para ser verdadeira. De alguma maneira isso a lisonjeava, 
pois havia algo de respeito no fato de Tyrone querer se assegurar de uma entrega consciente e livre da parte dela. Mas, Deidre no estava disposta a explicitar todas 
as razes que afinal a fariam decidir seguir em frente. Se dissesse que temia morrer antes de terminarem a viagem, por exemplo, isso iria soar como um insulto.
    Por outro lado, tambm no desejava dizer que seu corao pertencia a Tyrone Callahan, pois seria revelar mais do que o necessrio. O que ele queria era dividir 
e satisfazer a paixo que os consumia, e se isso tivesse por conseqncia destroar seu corao mais tarde seria melhor guardar a verdade para si mesma, pois no 
poderia se dar a um homem pedindo que lhe garantisse a reciprocidade de sentimentos que fossem alm da paixo e necessidade sexual. Entregar-se ou no, continuava 
sendo sua deciso, e se resolvesse faz-lo teria de ser adulta o suficiente para arcar com o que adviria, fosse o que fosse.
    Deidre o encarou e sorriu, tentando emprestar mais leveza  situao e dissipar as tantas idias que lhe cruzavam a mente. Sem pensar, cruzou os braos nas costas 
de Tyrone e o puxou para mais perto de si.
    - Sim...
    Um leve arrepio perpassou a coluna de Tyrone, que quase no acreditou no que acabava de ouvir, apesar da expresso serena de Deidre.
    - Tem certeza, minha flor?
    - Callahan, no consigo imaginar que um homem seja capaz de discutir depois de ouvir o que acabo de dizer.
    Ele tornou a roar os lbios nos dela artes de erguer o rosto, que agora exibia uma leve alegria.
    - Para ser sincero, tambm no posso crer que o esteja fazendo, Deidre. Talvez se trate de um instante de loucura de minha parte ou uma insegurana que jamais 
pensei que pudesse ter.
    - Ser que uni instante de loucura  tudo o que isto significa? - Deidre no conseguiu deixar de indagar, ainda que no gostasse de dar a impresso de que pedia 
garantias para justificar os prprios atos.
    - S Deus sabe! O que eu sei  que jamais me senti to louco por uma mulher corno agora e nunca experimentei algo to intenso a ponto de me fazer dizer o que 
estou dizendo.
    No havia mais como discutir, pensou Deidre, tornando a cerrar os olhos e se entregando aos beijos de Tyrone Callahan. Incerta, passou a retribuir os beijos 
na mesma intensidade e agora suas lnguas se tocavam num contato profundo e enlouquecido. Sentindo que tambm Tyronee sucumbia s sensaes que aumentavam em intensidade, 
ela ganhou confiana e abriu mais a boca para receb-lo. Apesar de soltar um murmrio de protesto quando ele retirou os lbios pouco depois, Deidre se conteve, pois, 
no prximo instante, Tyrone a beijava na garganta e o roar de sua barba spera a fazia arrepiar-se ainda mais. Quando ele passou a beijar-lhe a ponta dos seios, 
ela perdeu a capacidade de pensar com clareza e entrelaou os dedos nos cabelos espessos e agora despenteados do amante.
    Tyrone no conseguia crer no que se passava com ele. No era inocente e j tivera mulheres voluptuosas em seus braos antes, algumas at mais bonitas que Deidre 
Kenney, mas agora se sentia como um adolescente que no sabia ao certo como agir. Deidre era virgem e merecia ser tratada com delicadeza e carinho; mas subjugado 
por um desejo poderoso, ele no sabia se conseguiria se controlar.
    Ela tambm parecia ansiosa, pois mal o deixava terminar de tirar a roupa que ain& vestia e o puxava insistentemente para si. A respirao ofegantt, o corao 
pulsando to acelerado que parecia querer saltar do peito e as mos que o acariciavam nas costas, braos e pernas, demonstravam que Deidre se sentia refm, da mesma 
urgncia. Seu corpo feminino era como o de um anjo de seduo, e os cabelos espalhados sobre a brancura do lenol reafirmavam o convite ao amor.
    Sfrega, Deidre tambm se desvencilhou do roupo e da combinao, e em breve estavam ambos nus sobre o leito. Tyrone se deleitou com a viso do corpo perfeito, 
e ao voltar a fit-la nos olhos percebeu que ela tambm contemplava sua nudez com expresso amedrontada, pois certamente era a primeira vez que tinha intimidade 
com um homem.
    Apesar da novidade do momento, Deidre reconheceu que Tyrone era lindo da cabea aos ps, e admirou aquele corpo ao qual os msculos bem torneados davarn forma. 
Seu olhar o percorreu inteiro, desde o peito, passando pelo ventre rijo, para em seguida fitar as longas pernas que mal cabiain na cama, revelando o volume de suas 
coxas masculinas e cobertas por plos escuros. De repente sentiu-se insegura.
    - No tenha medo - disse Tyrone, talvez adivinhando seu temor e sorrindo ante seu olhar arregalado. - Eu nunca machuquei nenhuma mulher. Serei cuidadoso e tentarei 
faz-la me desejar to loucamente quanto eu a desejo, ainda que no tenha certeza de que v conseguir.
    Tyrone passou a mo pelas pernas de Deidre, em gestos lentos e provocantes. Ela foi arrebatada por sensaes novas e intensas, que no sabia descrever e que 
tomavam conta de todo o seu corpo em ondas sucessivas de prazer. Era como arder numa fogueira do Paraso, ainda que sempre dissessem que as fogueiras s existiam 
no inferno. Quando ele comeou a beijar seus seios, simultaneamente, Deidre j no conseguia distinguir a origem das sensaes que se espalhavam por seu corpo.
    Sem pensar, ela o apertou ainda mais de encontro a si e separou as pernas num gesto instintivo que nada tinha de pecaminoso. O escuro no a protegia, pois o 
quarto estava iluminado pela luz do dia e ela tinha conscincia de que mal conhecia Tyrone Callahan. Mas nada parecia estar errado com aquela unio sublime, que 
s lhe trazia prazer e vontade de se entregar por inteiro. Zonza, pensou que talvez comeasse finalmente a se tornar uma mulher plenamente adulta eno havia nada 
de anormal nisso. Se Deus a criara desta forma e lhe dera a capacidade de sentir o que sentia agora, ela s podia estar fazendo algo que era natural. Pela primeira 
vez na vida sentiu seu corpo ansiar pela consumao total da unio fsica, e o fato de ser unia necessidade at ento desconhecida no a tornava estranha nem mais 
causava medo.
    Tyrone continuava a beij-la no rosto, nos lbios, no pescoo, nos seios. Deidte se sentia febril e ao mesmo tempo cheia de energia. Agora no era necessrio 
saber como agir, as dvidas se dissipavam e tudo que ela pensava era que queria mais emas, necessitava da unio total de corpos entre um homem e uma mulher.
    Finalmente ele a penetrou num gesto que nada tinha de brusco ou descuidado, mas, ao contrrio, revelava ateno coirn seu bem estar e preocupao em no feri-la. 
Deidre sentiu uma pequena pontada numa regio do corpo que no conseguia exatamente identificar, mas que foi logo substituda por uma sensao doce, quente e mida 
que nada tinha de dolorosa.
    Ela o abraou com urna das mos sobre suas costas e outra sobre suas pernas, puxando-o para ainda mais dentro de si. Em breve ambos imergiam em movimentos rtmicos 
e compassados enquanto Tyrone murmurava seu nome de encontro a seu ouvido, falando to perto que seus lbios lhe tocavam a orelha. Os movimentos cresceram em velocidade 
e de repente ele parou de falar, mas continuou emitindo sons que pareciam emergir das profundezas de seu corpo de homem e que acompanhavam os movimentos que fazia. 
Agora, tambm ela acompanhava os mesmos movimentos de maneira a tornar o contato mais profundo e intenso.
    No saberia dizer quanto tempo permaneceram nesta dana louca, talvez alguns segundos, talvez muitos minutos. mas o fato  que afinal atingiram juntos um estado 
no qual pareceram se fundir um ao outro, perdendo-se num xtase impossvel de ser descrito por meio de palavras.
    Por fim, depois de gemidos e soluos de prazer, ambos se tornaram quietos, satisfeitos. Tyrone a beijou nos lbios e no rosto antes de finalmente afastar-se 
e deitar a seu lado.
    Por um breve momento Deidre se sentiu embaraada, pensando no que haviam acabado de fazer e em estarem naquele momento desnudos um junto do outro. Contudo, afastou 
tal sentimento e tomou a sorrir. Tyrone era seu amante agora! Apesar de ainda conservar certa discrio e pudor, Deidre compreendia que demasiado recato num momento 
como aquele poderia estragar a magia e a maravilha do que acabavam de vivenciar.
    Se fosse se tornar a amante de Tyrone Callahan, ento queria ser a melhor. Decidira se entregar arriscando-se a um futuro incerto, mas a possibilidade de que 
ele acabasse por desejar mais que fugazes momentos de paixo continuava existindo. No estava sendo pragmtica ao raciocinar assim, nem desejava arrumar um bom partido, 
mas o fato era que gostaria de ter mais, muito mais naquela relao e, se dependesse de Deidre, o fogo no se extinguiria ao chegarem a Paradise.
    Portanto, era melhor no tentar se resguardar, nem fingir falsa modstia. Devia ser sincera e entregar-se sem pedir nada em troca, pois se Tyrone tivesse de 
gostar dela, ento teria de ser pela mulher que realmente era, e no por uma figura criada atravs de artimanhas.
    Ele ergueu o tronco e, apoiando-se com o cotovelo sobre o colcho, a fitou, muito sorridente.
    - Eu no a machuquei, espero.
    Alegre, Deidre tocou-lhe o rosto.
    - No. Se houve um momento de dor, foi logo substitudo pelo... frenesi... em que camos - assegurou, tambm sorrindo. - Mas creio que tenho de usar o banheiro 
um momento. Sabe onde meu roupo foi parar?
    Tyrone esticou o brao e apanhou o roupo, que havia cado ao lado da cama, passando-o para Deidre. Ela se levantou, vestiu-o e seguiu para o banheiro um tanto 
encabulada.
    Por alguns instantes sozinho, Tyrone olhou para o teto e soltou um longo suspiro. Afinal acabou deixando o leito e servindo-se de uma dose de conhaque antes 
de se sentar numa das poltronas de veludo que criavam um canto de estar perto da porta.
    Sorvendo um longo gole do lquido forte, dizia a si mesmo que as fantasias mais loucas que tivera com relao a fazer amor com Deidre no chegavam aos ps do 
que sucedera. Todo o controle o abandonou no segundo em que ela se rendeu, e isso jamais se passara antes. Nunca se sentira to excitado ao fazer amor com uma mulher, 
nem to satisfeito ao consum-lo. Mulher alguma causara esse efeito nele, e isso de alguma forma trazia questes novas que jamais considerara.
    Evidente que existia a possibilidade de aquele fogo se extinguir em breve, mas seu instinto lhe dizia que isso no iria ocorrer. Podia ser que a situao de 
risco em que se encontravam fosse a responsvel por trazer tanta intensidade ao encontro agora consumado, mas algo dentro dele afirmava que essa possibilidade era 
rematada tolice. O mais interessante era que jamais se interessara por ruivas antes. Alis, elas nem ao menos lhe chamavam a ateno. Mas havia algo em Deidre que 
o atraa de um modo como mulher alguma fora capaz.
    Tivera dois relacionamentos envolventes no passado, mas em nenhum deles experimentara nada semelhante ao que sentira enquanto Deidre o abraava e puxava de encontro 
a seu corpo. Sim, ambos os envotvnentos terminaram de maneira desagradvel e provavelmente por esse motivo, a palavra "amor" no fazia mais parte do vocabulrio 
de objetivos que almejava alcanar na vida. Tyrone no confiava naquilo que denominavam "amor". A paixo e sensualidade eram bastante conhecidos e no apresentavam 
mistrios, nem perios.
    Alm de excelente companheira, Deidre era sem dvida unia pessoa confivei e dona de uma personalidade incrvel. Mas seria bom no deixar a imaginao voar, 
pois ainda era cedo demais para tal. Se tudo ainda estivesse to bom entre eles quando chegassem a Parv.d~se, ento ele consideraria no permitir que ela voltasse 
para Saint Louis.
    Quanto a si prprio, acreditava que amizade, companheirismo e respeito formavam uma base mais lgica e sadia para garantir a longevidade e estabilidade de uma 
relao do que o chamado "amor". Pela primeira vez, Tyrone considerou algo que evitara por anos: o casamento. Ainda que relutasse em admitir, seria unia enorme tolice 
desistir de unia garota se ela pudesse manter seu interesse tanto na cama quanto fora dela.
    
    Deidre abriu a tampa da banheira e observou a gua escorrendo pelo ralo. Terminara seu banho e se sentia bem, ainda mais porque a experincia de perder a virgindade 
no fora to dolorosa como muitas vezes temera em suas fantasias de moa inexperiente. Mais do que se sentir bem, estava feliz com a deciso que tomara, e no havia 
sombra de remorsos. A nica coisa que talvez ainda a preocupasse era pensar no rumo que tudo tomaria quando chegassem a Paradise.
    Contudo, aquele no era o momento adequado para se ocupar disso. Ainda tinham muitos dias de viagem pela frente e, mais importante, dali em diante se relacionariam 
numa nova base, diferente da que tiveram at ento. Era impossvel adivinhar o futuro, e muito mais importante era assegurar-se de que o presente trazia felicidade 
e conduzia seus atos de acordo com seus reais desejos.
    Deidre terminou de se enxugar e, antes de vestir o roupo, dirigiu-se, para o espelho sobre a pia e analisou-se. O que viu no reflexo do cristal era muito diferente 
do que muitos considerariam a imagem de uma mulher perdida. Ao mesmo tempo, tambm no via sinais do que lhe ia no corao; s o que enxergava eram as feies de 
uma mulher calma, madura e satisfeita.
    Suspeitava que nutria um amor profundo por Tyrone, pois apenas tal sentimento teria lhe dado fora para dizer sim quando ele a questionara e pedira que dissesse 
se de fato desejava se entregar ou no. Somente o amor poderia ter feito com que aceitasse receber Tyrone dentro de seu como, mas aquela emoo no era visvel no 
rosto que a encarava do outro lado do espelho. Tudo o que via era uma mulher adulta e satisfeita, talvez um pouco mais segura de si, mas no muito mais do que isso.
    Vestiu o roupo e, ao voltar para o quarto, observou que Tyrone havia bebido seu conhaque e voltara a deitar-se. Ele continuava desnudo, e Deidre fitou aquele 
corpo que a encantava e, como de hbito, mais unia vez, despertava a inevitvel reao de seus sentidos, agora acentuada pela lembrana dos momentos que h pouco 
haviam partilhado naquele mesmo leito. Sem perceber, ela parou e o fitou, calada por um longo momento. Tyrone tambm a fitava e, afinal, foi Deidre quem iniciou 
a conversa:
    - Est me olhando de maneira muito intensa.
    Tyrone manteve o olhar, e um sorriso iluminou seu rosto, que os cabelos negros despenteados e a barba por fazer tornavam ainda mais atraente.
    - Creio que estou esperando que voc faa ou diga algo.
    - Algo de acordo com uma mulher que acaba de perder a virgindade? Uma mostra de pudor, vergonha ou talvez lgrimas?
    - Sim, alguma coisa do gnero.
    - Por qu? Afinal, eu mesma tomei a deciso de faz-lo, e se no gostar das conseqncias, o problema ser todo meu,
    - Conseqncias? - O sorriso dele se alargou. Em seguida, aproximou-se de Deidre e abriu o roupo que escondia sua nudez. - O que acha delas at agora?
    -Foram muito boas -dsse ela, permitindo que ele a despisse e comeasse a afag-la. - Como voc mesmo disse, como se pode dizer no a isto?
    Tyrone a beijou, e Deidre sentiu o desejo renascer, e na mesma intensidade. O que sentia por aquele homem era surpreendente e um tanto assustador. Ainda que 
decidida a no pensar no futuro por ora, seu corao dizia que teria de ser forte, caso terminasse ficando sozinha em breve. De qualquer modo, considerava-se muitssimo 
capaz de partir com dignidade e o orgulho intacto se fosse obrigada a retomar a vida e lutar para construir um futuro para si.
    
    
    Captulo VII
    
    - Algo errado? - Deidre notara que Tyrone parecia tenso, e por isso mais uma vez se virava para trs, perscrutando a imensa pradaria gelada que se confundia 
com o horizonte ao longe.
    Mais de uma semana se passara antes que pudessem prosseguir viagem, pois a neve se tornara mais forte. E quando enfim cessou, foi substituda por temperaturas 
ainda mais baixas e ventania intensa. O frio tambm atrapalharia seus possveis perseguidores, mas quanto mais tardassem a chegar a Paradise, maior o risco.
    Deidre no podia reclamar dos dias passados na hospedaria, pois serviram para conhecerem melhor um ao outro tanto fsica quanto emocionalmente, e mesmo os conflitos 
que sempre surgem quando se passa muito tempo com algum os ajudaram a aprofundar a relao. Ela se sentia cada vez mais apaixonada por Tyrone, mas no tinha idia 
de quais eram os sentimentos dele.
    - Tenho a sensao de que estamos sendo seguidos, Deidre.
    - Se no pudemos viajar por causa do clima ruim, ningum mais poderia t-lo feito.
    - Talvez sim, talvez no. Ainda necessitamos cavalgar um dia inteiro antes de chegar ao prximo abrigo, e se estiverem em nosso encalo, talvez j estejam perto.
    - Continuamos cavalgando ento?
    - No h alternativa.
    - No podemos mais nos atrasar, no ?
    - Isso mesmo. Eu gostaria de passar o Natal em Paradise.
    Deidre tambm, apesar de no diz-lo. Sua famlia agora estava reduzida a ela e Maura, e seria maravilhoso se pudessem comemorar o Natal juntas. Entretanto, 
alm de no ser possvel ter certeza de que Maura chegaria a Paradise no prazo, o trmino da viagem poderia significar tambm o fim de seu romance com Tyrone.
    Deidre fitou o cu cinza e sem sol. O frio penetrava-lhe at os ossos, apesar dos tantos agasalhos de l que usava, e suas costas doam por estar galopando sem 
parar por vrias horas. Tambm ela se preocupava, consciente de estarem expostos ali, em campo aberto. Seriam um alvo fcil mesmo a distncia.
    Virou-se para trs e escrutinou a pradaria, mas no notou nada de anormal. Ao se voltar para a frente outra vez, percebeu que Tyrone a fitava.
    - Notou algo estranho, Deidre?
    - No, nada. Mas creio que chegou a hora de lhe contar onde guardo os documentos.
    Ambos diminuram a marcha at atingirem um trote vagaroso, para poderem conversar com mais facilidade. Inclinando um pouco o corpo, Tyrone esticou o brao e 
tocou-a na face.
    - Estou certo de que os guarda em algum lugar seguro, minha flor.
    -Sem dvida. - Deidre exalou um suspiro. - Mas a verdade  que devemos estar sendo seguidos, e no sabemos por quem ou quantos. Se algo me acontecer, voc dever 
pegar as escrituras e seguir em frente.
    Tyrone no podia nem imaginar que algo de mal sucedesse a Deidre, e a idia de que pudessem machuc-la o enchia de temor.
    O que vivenciaram no ltimo vilarejo o fizera tomar conscincia e aceitar o quanto aquela mulher era importante para ele.
    - No acontecer nada com voc.
    - Tambm espero que no, mas seria tolice desafiar o destino e ter absoluta certeza disso.
    - Est bem. Onde esto os documentos?
    - Minha saia tem um bolso interno e secreto do lado esquerdo, um pouco abaixo da cintura. Como uso uma combinao de l, no  fcil perceb-lo. - Deidre enrubesceu 
ao ver que Tyrone fitava suas pernas. Como podia ainda corar depois de toda a intimidade que haviam partilhado'?
    - Estou surpreso por jamais t-lo notado depois de jud-la a tirar a roupa tantas vezes. - Tyrone sorriu.
    -  um bolso bem oculto. - Ela deu de ombros. - Pareceu-me o melhor lugar, pois bolsas podem ser  roubadas num momento de descuido, e a bagagem, revistada.
    - Voc tambm pode ser revistada.
    - Sim, mas j estarei praticamente perdida se chegarem ao ponto de me imobilizar e revistar.
    - Obrigado por me contar. - Tyrone sentia-se um pouco angustiado por ter de, mais uma vez, reconhecer os riscos das circunstncias que enfrentavam.
    -  curioso que no tivesse tornado a me perguntar onde os guardei.
    - Sabia que voc os ti-azia consigo e, j que me acompanha a Paradise, no era necessrio saber onde estavam.
    Calaram-se e seguiram adiante.
    O vento cortante feria a pele, e talvez recomeasse a nevar em breve. Tyrone sentia-se cada vez mais tenso e preocupado, mas por sorte faltavam apenas duas ou 
trs horas at alcanarem o prximo ponto de parada. Dessa vez teriam de pernoitar numa cabana de madeira, pois no havia nenhum vilarejo por perto. Apesar de no 
perceber nada de anormal, ele sentia algo no ar que o incomodava e que cheirava a perigo. Contudo, s o que podiam fazer no momento era continuar cavalgando.
    A cabana em que iam se alojar pertencia a um de seus tios, e ainda que no fosse uma fortaleza, as paredes de troncos de pinho ofereceriam mais segurana do 
que cavalgar ao ar livre.
    
    Quando o ataque chegou, eles no tiveram como escapar. Os tiros soaram de repente e, aterrorizada, Deidre viu Tyrone tombando de encontro ao pescoo do cavalo 
e perdendo o controle do animal, apesar de ainda permanece sentado sobre a sela. Assustados, os cavalos dispararam e, como a montaria de Tyrone galopava ainda mais 
rpido que a de Deidre, em minutos ela ficou para trs.
    Num instante Jim e Pete se aproximaram e a cercaram, obrigando-a parar, enquanto o cavalo de Tyrone continuava disparado rumo a um bosque no muito distante.
    Deidre agradeceu aos Cus ao notar que ele continuava sobre a sela, com seu animal sumindo entre as rvores. Mas o alvio durou pouco, pois os dois pistoleiros 
a encaravam naquele instante. Sem querer, ela comeou a imaginar qual maneira eles escolheriam para mat-la.
    - Maldio! Callahan escapou! - Jim segurava as rdeas do cavalo de Deidre. - No conseguiremos mais alcan-lo!
    - No faz diferena. Sem dvida ns o acertamos, e no creio que v nos incomodar mais.
    - E ento, senhorita? - Jim se virou para Deidre. - Onde esto as escrituras?
    - Que escrituras? - Ela se parabenizou pelo tom calmo com que falava, apesar de estar estourando de fria e dor por dentro.
    - Pode escolher entre nos contar agora ou esperar at que a levemos a um lugar onde possamos revist-la - continuou Jim. - O que faremos com imenso prazer, sem 
dvida.
    No era necessrio ser muito perspicaz para saber o que ele queria dizer com aquilo: pretendiam mat-la, mas antes disso a violentariam.
    Um n de raiva e medo se formou em sua garganta, ainda mais intenso por no saber em que estado Tyrone se encontrava. E nem mesmo se ainda vivia. Decidiu que 
deveria manter a calma, pois enquanto tivesse vida, teria chance de escapar.
    - Os documentos esto numa bolsa amarrada na sela de Tyrone - disse ela sem titubear.
    Os dois pistoleiros pareceram desanimar um instante, mas logo tornaram a encar-la, com suspeita.
    - Acho que ela est mentindo, Jim.
    -Tambm acho, Pete. Mas  melhor averiguar isso mais tarde, pois estou congelando por ficar aqui parado. Sei que h uma cabana algumas milhas adiante onde poderemos 
descobrir se esta semvergonha diz a verdade ou no.
    - E o que farei-nos se ela de fato estiver falando a verdade?
    - Ento teremos de procurar aquele idiota. Seu cavalo no ir muito longe sem algum segurando as rdeas.
    - Mesmo assim poder ser difcil encontr-lo.
    - Seguiremos os rastros.
    Sem mais nada acrescentar, Jim emparelhou ao lado de Deidre e, depois de fazer sinal para que Pete fizesse o mesmo do outro lado, deu uma chicotada no cavalo 
dela e partiram a galope.
    Deidre, muito assustada, se perguntava que sentido faria tentar salvar a prpria vida se no fosse mais possvel ter Tyrone a seu lado. Porm, tinha de tentar 
cumprir a promessa que fizera ao pai, e agora mais do que nunca, pois iria se vingar pelo que haviam feito a Tyrone. Necessitava tentar escapar e prosseguir viagem, 
por mais doloroso que fosse seguir adiante sem o homem que amava.
    Ao chegarem  cabana, Deidre j conseguira se acalmar um pouco. O terror e a ira ainda produziam um n em sua garganta, mas isso lhe daria foras para tentar 
matar aqueles dois pistoleiros.
    Jim a empurrou para dentro da casinha de madeira e a amarrou numa cadeira em frente da lareira apagada. Em seguida, os dois foram buscar as provises ainda amarradas 
s selas, e Deidre os observou acender o fogo assim que retornaram, sem esquecerem de trancar bem a porta. Se pretendiam viol-la, teriam de desamarr-la primeiro, 
e esse seria o momento oportuno para tentar a fuga.
    Assim que as labaredas crepitaram, os dois brutos a desamarraram. Deidre esfregou os pulsos, tentando aliviar a dor que a presso das cordas lhe causara.
    J  um bom comeo. Agora ao menos. j posso me movimentar.
    Era necessrio achar algo quee pudesse usar como anna para enfrent-los, por isso Deidre olhou ao redor, tentando descobrir algum objeto que servisse para tal. 
Sua situao no era das melhores, mas no desistira de lutar; ee ainda tinha chances.
    - Cozinhe alguma coisa para ns - ordenou Jim, que parecia ser quem sempre decidia as coisas.
    - Espera ainda que os alimente antes que me matem? - replicou Deidre, com frieza.
    - Ningum disse nada a respeito de mat-la.
    - Ah, ento se trata de um encontro amigvel...
    - Tudo o que queremos so os docurneutos.
    - Imagino. E sem dvida os Martin no se importariam que uma testemunha de seus crimes fosse deixada viva para acus-los.
    - Melhor no criar mais problemas, moa. Deve nos dar o que queremos e a deixaremos voltar para casa.
    - Vocs acabaram de matar Tyrone Callahan, e antes j haviam assassinado dois homens em Saint Louis. Tambm me apontaram uma arma no meio de um restaurante cheio 
de gente, e agora querem que eu acredite que me deixaro partir ao obterem o que desejam?
    - Cale a boca e prepare algo para comermos! - Jim a empurrou para o fogo de lenha no canto da cabana. Pete depositou um pouco de bacon, feijo e farinha na 
pequena mesa ao lado da pia com a bomba de gua, e em seguida foi revistar a valise de Deidre, que trouxeram para dentro.
    Suspirando, ela decidiu que seria melhor cozinhar para eles, pois isso a faria ganhar tempo, e todos os minutos contariam dali em diante at surgir uma oportunidadee 
para fugir. Portanto, ainda que fosse difcil, teria de engolir em seco e desistir de criar tenses desnecessrias. Tal atitude no servia a seus interesses.
    Deidre, enquanto preparava a comida, pensava em Tyrone, pedindo a Deus que o ferimento  bala no houvesse sido fatal e que ele no tivesse o destino de apodrecer 
no meio do bosque at que, sabe-se l quando, algum deparasse com seus restos. Porm, por estranho que fosse, algo lhe dizia que Tyrone continuava vivo. Era como 
se seu sexto sentido lhe dissesse que a avisaria se algo muito ruim houvesse se passado com aquele homem que em to pouco tempo adquirira tamanha importncia em 
sua vida.
    No entanto, naquele momento no podia se preocupar demais com ele; devia concentrar a ateno em elaborar um plano de fuga. Se Tyrone tivesse sobrevivido, como 
pressentia, sem dvida iria poder cuidar de si por ora. Decerto tambm Tyrone esperava que ela soubesse se arranjar e tentasse todo o possvel para reverter a pssima 
situao em que se encontrava. E se um milagre acontecesse e Tyrone se achasse forte o suficiente para vir em seu auxlio, Deidre queria estar preparada para ajud-lo 
a vencer aqueles dois pistoleiros desalmados.
    Afinal o jantar ficou pranto e, por menos que o desejasse, Deidre se obrigou a sentar-se e comer ao lado de Jim e Pete. Eles a mantiveram sob constante vigilncia 
enquanto Deidre cozinhava, mostrando que no eram tolos o bastante para deix-la tentar algo inesperado.
    Os dois comiam como ces vadios, e era uma tortura dividir a mesma mesa com eles. Mas no havia muito a fazer seno empurrar o alimento pela garganta e continuar 
aguardando pelo momento certo.
    - No encontramos os documentos em sua bagagem - disse Jim, ao terminar de comer.
    - J disse que esto com Tyrone. - Deidre se levantou e comeou a recolher os pratos para levar para a pia.
    - Ainda no foi capaz de me convencer. - Jim caminhou at postar-se to perto dela que seus corpos quase se tocavam.
    - Nesse caso, deveria averiguar minhas coisas outra vez. - Ela se afastou um pouco, e se ps a lavar os pratos.
    - H outras maneiras interessantes de obrig-la a falar. - Ele agarrou-lhe o brao com tanta fora que quase a fez gritar.
    - Talvez eu de fato saiba onde os papis estejam. Por que no me levam para Paradise e deixam que eu mesma conte para os Martin? Afinal, aceitei essa tarefa 
porque me prometeram que seria paga para faz-la, e no estou disposta a desistir da recompensa. Na verdade, para mim tanto faz se for paga pelos Callahan ou pelos 
Martin.
    Era difcil de acreditar, mas o pistoleiro parou um segundo e refletiu sobre o que acabara de ouvir. Deidre propunha algo muitssmo traioeiro, revelando uma 
personalidade to vil quanto a de seus agressores, e talvez por isso Jim estivesse considerando se o que dizia fazia sentido ou no.
    Entretanto, ele pareceu chegar a uma concluso, e a maneira como seus olhos brilhavam mostrava que no acreditava nela. Ou pior: compreendia que Deidre estava 
longe de ser to desonesta quanto eles. Se fosse assim, seria mais difcil engan-los dali para a frente.
    - Para ser franco, no gosto da idia de matar unia mulher. Ainda mais por desperdiar a chance de ter quem nos esquente um pouco at chegarmos a Paradise.
    - Ela est mentindo - assegurou Pete. - Aqueles dois outros homens no entregaram os documentos nem mesmo sabendo que iam morrer por no o fazerem, e essa a 
 igualzinha a eles, faz parte da mesma corja.  filha daquele irlands idiota e to honesta quanto o pai. Se estivesse disposta a mudar de lado agora, no teria 
lutado tanto para escapar.
    - No propus nada antes por no crer que vocs concordariam em fazer um acordo - continuou Deidre, ainda insistindo na mentira. - Achei que quisessem os documentos 
para receberem a recompensa sozinhos.
    - Se ns mesmos levarmos os papis, dividiremos a recompensa em duas partes e no em trs, o que  bem melhor.
    - Se me matarem, jamais conseguiro encontrar as escrituras.
    - Tenho certeza absoluta de que esto com voc, garota. Se no estivessem, no iria se arriscar para chegara Paradise, e aquele Callahan imbecil no teria vindo 
encontr-la.
    Indignada e num rompante, Deidre desferiu um soco no rosto de Jim, ainda que aquilo no fosse ajudar em nada. Ela no era to forte quanto eles, mas o golpe 
servira a seu propsito, pois o bandido soltou um uivo de dor e cobriu o nariz com as mos. Deidre correu para a porta, mas Pete a alcanou e a deteve, dando-lhe 
um empurro que quase a fez cair no cho. Decidida a continuar lutando, Deidre agarrou a p para remexer carvo que avistara ao lado da lareira e a ergueu diante 
de si num gesto de defesa e ataque. Por sorte o instrumento de ferro no era muito pesado mas serviria para machuc-los se ela conseguisse golpear com toda a fora 
que tinha.
    Os dois chegaram perto, mas a p servia como escudo e os mantinha a certa distncia. Com prazer, Deidre viu que Jim sangrava pelo nariz. Seria muita alegria 
para ela se o tivesse quebrado!
    - No  muito inteligente nos deixar mais zangados - comeou ele, dando mais alguns passos.
    - Por que no? Afinal, pretendem acabar comigo, e  impossvel matar a mesma pessoa duas vezes. - Deidre avanou com a p, obrigando-o a recuar outra vez.
    - Mas pode nos dar vontade de mat-la devagar e com muita dor.
    - Morrer  morrer, e para mim tanto faz. 
    - Uma morte rpida  melhor.
    - Saibam que no tenho inteno alguma de perder a vida, e pretendo faz-los pagar pela morte de meu pai, de Bill e de Tyrone. Ainda terei o prazer de v-los 
serem enforcados.
    - No conseguir nos vencer com essa estpida p de ferro que mais parece um brinquedo de criana.
    - Mas posso machuc-los o suficiente para fugir. -- Deidre notou que Pete levava suas palavras a srio.
    - No tenha tanta certeza - assegurou-lhe Jim.
    Os dois se aproximaram ao mesmo tempo, e Deidre passou a desfechar golpes no ar, conseguindo ferir o brao de Pete. Contudo, ambos comearam a rir de sua resistncia, 
e ela compreendeu que, por mais que lutasse, no era preo para vencer aqueles homens. Eles se aproximavam cada vez mais e a comprimiam contra o fogo da lareira, 
que ardia a suas costas. Dali no havia maneira de correr para a porta da frente, nem para a porta ao lado da pia, que dava para os fundos da cabana.
    Com um gesto inesperado, Jim conseguiu agarrar a p, quando Deidre mais urna vez tentou atingi-lo, e no instante seguinte Pete pulou sobre ela e a imobilizou. 
A fora do ataque desequilibrou a ambos, que caram, e o pistoleiro se deitou sobre ela, segurando seus braos e deixando-a totalmente sem possibilidade de se mexer. 
Enquanto isso, Jim atirou a p para longe e foi at Deidre, de modo que o bico da bota suja quase tocava-lhe o rosto.
    S um milagre poderia salv-la. Mas milagres no acontecem com freqncia, e tudo indicava que seu pai e Bill haviam morrido por nada, assim como Tyrone e ela 
tambm morreriam. A histria terminava ali e o fim estava claro: os Martin venceriam de novo.
    
    
    Captulo VIII
    
    Uma dor aguda no lado direito da barriga foi a primeira coisa que Tyrone sentiu ao comear a voltar a si. A prxima sensao de que teve conscincia foi o frio 
imenso que atingia seu corpo inteiro.
    Devagar, ele se ergueu at conseguir se sentar ereto sobre a sela e, ainda zonzo, se surpreendeu ao constatar que continuava vivo. A temperatura baixssima o 
fazia tremer e congelava o suor em sua testa e nuca. Seu cavalo tambm no parecia muito forte, e Tyrone se inclinou para afagar o pescoo do animal, que respirava 
com dificuldade.
    Tyrone demorou um pouco para lembrar o que se passara antes de desmaiar, mas afinal recordou o ataque que haviam sofrido. Ao olhar em volta, constatou no estar 
muito longe da cabana onde at ento pretendia passar a noite com Deidre. Ainda bem que os bandidos no o perseguiram, pois, desmaiado e inconsciente, teria sido 
uma presa fcil.
    Zonzo e debilitado, decidiu que a primeira coisa a fazer era cuidar do ferimento na barriga. O sangue ainda saa em grande quantidade, e uma forte hemorragia 
combinada com o desgaste causado pelo frio podia ter um efeito nefasto. Lutando contra a dor que os movimentos causavam, retirou uma camisa da valise atada  sela 
e a amarrou em torno de si para tentar estancar o sangramento.
    Apesar de frgil e vulnervel, Tyrone sabia que tinha de agir, pois Deidre necessitava de sua ajuda o mais rpido possvel. O sol ainda no se pusera, e portanto 
ele devia ter ficado desacordado durante uma ou duas horas, decerto no mais do que isso. Os pistoleiros no a teriam matado se no tivessem conseguido faz-la revelar 
onde escondia os documentos, e Deidre teria feito todo o possvel para adiar esse momento, tentando ganhar o mximo de tempo at esgotar todas as possibilidades 
antes de revelar onde guardava as escrituras. O problema era que aqueles homens estariam dispostos a tortur-la ou fazer algo muito pior para obter o que queriam 
e, se ela ainda no estivesse morta, nada garantia que continuasse preferindo estar viva.
    Tyrone puxou as rdeas da montaria com gentileza e rumou para fora do bosque e de volta  trilha que seguiam, no tardando a descobrir o rastro dos cavalos na 
neve: eles haviam se dirigido  cabana onde tencionava pernoitar com Deidre! Essa era uma m notcia, pois indicava que os agressores sabiam da existncia da cabana; 
sendo assim, o que mais saberiam? Ser que os Martin haviam conseguido descobrir a rota exata que ele pretendia seguir? Se assim fosse, ele e Deidre teriam ainda 
menos segurana dali para a frente, pois seus perseguidores sempre saberiam de antemo onde estavam e onde iriam se abrigar.
    Contudo, era melhor deixar as futuras questes para quando elas se apresentassem e se concentrar no problema que tinha de resolver de imediato: descobrir o que 
passava com Deidre e livr-la das mos daqueles malfeitores.
    Comeava a escurecer quando Tyrone afinal se aproximou, avanando devagar e em silncio, da pequena cabana perdida na pradaria gelada. Havia luz l dentro, e 
a chamin soltava um pouco de fumaa. Sem fazer rudo, desmontou com cuidado, tentando evitar movimentos bruscos que o fizessem sentir dor demais.
    Quando tocou o solo, tomou as rdeas e conduziu o cavalo para detrs de algumas rvores prximas, amarrando o animal de forma a que no pudesse ser visto, caso 
algum olhasse pela janela.
    Sua montaria estava esgotada e tinha frio, mas no havia muito a fazer no momento seno deixar o animal ali para que ao menos pudesse descansar um pouco. Tyrone 
tambm se sentia exaurido, e caminhar custava uma energia da qual quase no dispunha mais. Se no recobrasse as foras logo, seria impossvel crer que teria chances 
de salvar Deidre dos agressores.
    - Droga! - resmungou para si mesmo ao se recostar no tronco de uma rvore para respirar fundo e se recuperar por um momento. - No posso deixar aqueles canalhas 
vencerem!
    Todo o seu corpo tremia, e suas pernas estavam bambas, mas Tyrone se obrigou a continuar caminhando. Nunca devia ter permitido que Deidre o tivesse acompanhado 
naquela empreitada to arriscada, mas j que o tinha feito, agora era necessrio salv-la.
    No era fcil avanar, e ele tentava se esconder o mximo possvel entre os arbustos. Na verdade, o que lhe conferia nimo para seguir em frente no era tanto 
a necessidade de defender as propriedades da famlia ou sua ira contra os Martin, mas o fato de saber que Deidre se encontrava nas mos daqueles pistoleiros que 
se comportavam como animais selvagens e que sem dvida pretendiam se aproveitar dela. A simples idia de que a tocassem bastava para enfurec-lo, e essa raiva produzia 
a energia que o impulsionava, apesar da dor incessante que provinha do ferimento e do sangue que continuava escapando.
    Silencioso como um felino, Tyrone afinal venceu os ltimos metros que o afastavam da pequena construo de madeira e recostou-se contra a parede de troncos de 
pinho para mais uma vez reunir energia. Mesmo naquele lusco-fusco do fim do dia, era possvel perceber as manchas de gotas de sangue na neve por onde ele passava. 
Seus atacantes descobririam que ele estava ali se viessem para fora por algum motivo.
    Prendendo a respirao, esgueirou-se pela parede de troncos em direo aos fundos. A surpresa era a nica vantagem que tinha no momento, e necessitava mant-la 
a qualquer custo.
    Ao chegar  parte de trs da casinha, notou a pequena porta dos fundos pela qual poderia entrar e, ainda melhor, uma janela minscula que lhe permitiria averiguar 
o que se passava l dentro. At ento no tinha certeza de quantos homens os haviam atacado, apesar de seu instinto dizer que Jim e Pete ainda eram os pistoleiros 
que os perseguiam. No sabia tambm as condies em que Deidre se encontrava no momento, e era necessrio obter toda essa informao antes de tentar algo.
    Com extremo cuidado, Tyrone se arrastou at embaixo da janela e, erguendo a cabea devagar, finalmente conseguiu enxergar o que ocorria l dentro. Deidre tentava 
se defender usando uma pequena p de ferro, e seus atacantes eram de fato Jim e Pete, que no momento a encurralavam de encontro  lareira. Tyrone admirou a coragem 
da companheira, mas tinha conscincia de que ela no poderia resistir por muito tempo.
    Como temia, logo depois Deidre foi dominada e jogada ao cho. Ao observar aquele maldito Pete se atirando sobre ela, Tyrone teve de lutar para no irromper porta 
adentro, mas sabia que teria uma maior chance de sucesso caso esperasse um momento no qual os pistoleiros tivessem toda a ateno concentrada em Deidre. Isso significava 
que teria de permitir que eles iniciassem o que tinham em mente, e s podia ter esperana de que mais tarde ela compreendesse seus motivos e o perdoasse.
    
    Deidre se debatia tentando empurrar Pete para longe de si, mas ele a segurava com firmeza e a imobilizava. Erguendo um pouco o peito, o bandido agora a fitava 
com um sorriso maligno, que misturava crueldade e desejo sexual. Seu hlito e corpo cheiravam to mal quanto uma latrina, e seus dentes eram verdes de sujeira. Deidre 
sentia uma tremenda repugnncia por aquele sujeito que a tocava, mas o pior de tudo era saber que talvez em breve todas as memrias das delcias e maravilhas sensuais 
que desfrutara com Tyrone seriam nubladas pelo que aqueles fora-da-lei a fariam sentir ao aproveitarem-se dela sexualmente.
    Claro que a matariam depois, mas ela no teria nem mesmo a graa de morrer guardando doces recordaes, mas sim trazendo na memria e na carne as marcas traumticas 
de contatos vis e indesejados. Deidre sentia medo, raiva e desespero, e esse misto de emoes de certa forma lhe dava foras para continuar lutando. Seria muito 
melhor se a matassem de uma vez por todas e abreviassem aquela tortura. Mas a fria tambm crescia em intensidade e a adrenalina se juntava em seu sangue, criando 
nimo para se opor e resistir.
    - Afaste-se de mim, seu animai imundo! - ela gritou, grata por ver que Pete arregalava os olhos e se surpreendia com tamanha firmeza.
    - Devia pensar duas vezes antes de me insultar! - E agarroulhe os pulsos, mantendo os braos de Deidre presos contra o piso e acima da cabea dela.
    - Gostaria de poder mat-los, mas s o que posso fazer  insult-los.
    - Comeo a pensar que alm de sem-vergonha voc tambm  tola. - Jim ainda se mantinha em p, com a ponta da bota muito prxima do rosto dela, como se pretendesse 
pis-lo. - Sabe muito bem o que eu e Pete vamos fazer com voc, e seria melhor se fosse mais boazinha conosco, pois assim talvez a tratemos com um pouco mais de 
carinho... e quem sabe voc ainda vai acabar gostando! - E soltou uma horrvel gargalhada.
    - Ser boazinha e tornar mais fcil para vocs me violarem e matarem quando estiverem satisfeitos?! - Deidre rilhou os dentes quando Pete se ps a arrebentar 
os botes de sua blusa.
    - Ora, deixe de tolices! S vamos lhe dar um pouco mais daquilo que Callahan lhe proporcionou nos ltimos dias. E tenho certeza de que voc gosta!
    -  uma blasfmia querer comparar o que pretendem fazer comigo com o que Tyrone me fez viver. Se ao menos tomassem um banho e tivessem um mnimo de educao, 
talvez conseguissem obter uma mulher sem necessitar atir-la ao solo e obrig-la a fazer o que no quer.
    - Com os diabos, alm de tola tambm  estpida e tem menos inteligncia que um ganso! - Jim, agora muito irritado, encostou a ponta da bota na face de Deidre. 
- De uma vez por todas, onde esto os documentos?
    - V para o inferno!
    - Segure os braos dessa mulherzinha -toa para que eu possa tirar sua saia e abrir-lhe as pernas - disse Pete de repente, e Jim se agachou atrs da cabea de 
Deidre e agarrou seus braos.
    Com ambas as mos livres. Pete terminou de abrir-lhe a blusa com um movimento brusco e em seguida rasgou sua combinao, expondo os seios alvos e redondos de 
Deidre. Com o mesmo sorriso maligno, ele cobriu-lhe os seios com as mos e apertou-os, causando dor e nojo.
    Deidre sabia que em breve j no seria capaz de continuar mantendo a bravura e coragem, pois aqueles brutamontes conseguiriam que o sofrimento e a mgoa se tomassem 
maiores que qualquer outro sentimento; mas no ia dar-lhes o prazer de possu-la com facilidade e sem luta. Seria talvez mais fcil morrer ou estar inconsciente 
do que seguir acompanhando a sujeira e maldio de um ato to desprezvel quanto utilizar o corpo de uma mulher contra sua vontade. Mas se sua vontade e conscincia 
se quebrassem, ela perderia a energia que ainda lhe restava para resistir, ao menos emocionalmente. Por estranho que fosse, talvez mais do que o fato de que iriam 
fazer dela um mero objeto, o que mais a incomodava era saber que mais cedo ou mais tarde eles poderiam conseguir coloc-la num estado to traumtico a ponto de ela 
no poder mais dar voz  repugnncia que sentia.
    Pete comeava a lhe arrancar a saia, e Deidre teve a impresso de que comeava a percorrer um corredor escuro, no final do qual j no sentiria aquelas mos 
malditas que a tocavam, tornando-a assim insensvel  violncia a que era submetida. Mas, se permitisse a si mesma cair de vez em tal torpor, perderia toda e qualquer 
chance de escapar durante ou depois de ser violentada, e a morte seria seu destino. Ainda que o preo a pagar fosse alto, tinha de tentar continuar mantendo-se dona 
de si, mesmo que isso a obrigasse a experimentar o horror do estupro.
    - Ela  magrinha, mas sem dvida tem pernas e seios bonitos. - Pete quase babava sobre ela.
    - Ainda o farei pagar por isso! - Deidre berrou, feliz ao perceber que sua resistncia continuava firme e inalterada.
    - E como pretende faz-lo? - Jim, soltando outra gargalhada, apertou seus pulsos de tal jeito que a fez gritar. - Pretende nos assombrar depois que a matarmos?
    -  isso mesmo o que farei se conseguirem acabar comigo. Eu os assombrarei cada dia de suas vidas at que o diabo os leve embora de vez! E no se esqueam de 
que os Callahan tambm iro vingar a morte de Tyrone.
    - Ora, os Martin tomaro conta deles. - Pete limpou a boca na manga da camisa. - E, alm do mais, os Callahan no nos conhecem.
    - Como pode ter certeza disso? Como sabem que nem eu nem Tyrone no os avisamos e descrevemos quem nos estava perseguindo?
    Por um momento ambos os delinqentes pareceram hesitar, mas Pete logo se recuperou:
    - J acertamos Tyrone Callahan e faremos o mesmo com seus irmos, se necessrio.
    - Pare de discutir com essa prostituta e arranque logo sua saia. No vejo a hora de chegar a minha vez.
    Quando Pete tocou a roupa intima de Deidre, um rudo alto se ouviu. Os dois assassinos se voltaram, rpidos, e Pete se ps de p. Mesmo sem saber direito o que 
acontecia, Deidre rolou para longe deles e, no instante seguinte, ergueu-se. Enfim, e to surpresa quanto os facnoras, ela viu Tyrone parado sob o umbral da entrada 
dos fundos.
    Ele estava plido e tinha a roupa manchada de sangue, mas empunhava o revlver. Deidre se perguntava onde Tyrone arrumara fora para escancarar a porta com tamanho 
chute. Sem pensar duas vezes, porm, ela decidiu ajud-lo. Agachando-se, tornou a agarrar a p que havia pouco usara para se defender.
    As balas comearam a cruzar o ar no instante seguinte, e Deidre teve de se esconder atrs da mureta de pedra da lareira. Pete correu para a porta da frente. 
Jim cambaleou um momento, e Tyrone foi buscar proteo abaixando-se ao lado da pia, tambm de pedra, mas no sem antes conseguir acertar um tiro no brao direito 
de Jim.
    Num instante, Pete conseguiu abrir a porta e saltou para fora. Jim o seguiu, ainda voltado para trs, apesar de j no conseguir atirar por causa do brao ferido.
    Deidre soltou um grito ao ver que os dois pistoleiros acabariam escapando, mas, por estar agachado para se proteger, Tyrone no pudera tornar a fazer pontaria 
e acert-los de forma fatal antes de pularem para fora da cabana.
    Tyrone e Deidre se viram sozinhos. Ento, ele saiu do esconderijo, correndo para a sada com a seguia inteno de persegui-los.
    - Espere!
    Mas Tyrone no lhe deu ouvidos.
    Ela foi para a porta. Os assassinos, montados em seus cavalos, puseram-se a galope. Outro disparo soou, e seu impulso imediato foi tornar a correi para dentro, 
mas concluiu que no podia ser nenhum dos dois pistoleiros quem atirara, pois ambos se empenhavam em sumir na escurido o mais rpido possvel.
    - Tyrone? - Deidre apertou ainda mais a p de ferro que empunhava.
    - Os bastardos conseguiram escapar. - Tyrone se aproximou. - No poderei mais alcan-los. S me resta ir buscar meu cavalo e traz-lo para c.
    - Espere - Deidre repetiu, mas Tyrone j andava em direo  rvore onde deixara seu animal amarrado.
    Deidre hesitou um mo mento, mas tornou a entrar na cabana. Tinha de tornar a se vestir, pois no poderia enfrentar o frio e a, neve s com as roupas de baixo. 
Seu corpo comeava a tremer, e ela viu-se prestes a se render ao estado de choque que os ltimos acontecimentos trariam. Mas esforou-se para no sucumbir. Tyrone 
necessitava dela agora. Mais tarde poderia dar vazo a todo o horror e desespero que experimentara.
    Pouco depois, Deidre tornou a sair e o viu levando o cavalo para o pequeno estbulo ao lado da cabana. Correu a seu encontro. Seu amor estava a ponto de sofrer 
um colapso e cair, apesar de dar mostras de que no pretendia parar por ali.
    - Voc est ferido...
    - No  to grave quanto parece, minha flor. - Tyrone entrou com o animal no coberto de madeira e tirou a sela das costas dele.
    - Como posso saber? Ainda no vi o ferimento.
    - Estou aqui, no estou? E consegui fazer aqueles dois malditos fugirem correndo.
    Tyrone sabia que estava sendo teimoso e no compreendia a razo. Sua obstinao em cuidar do cavalo antes de si prprio talvez fosse seu jeito de negar a gravidade 
do prprio machucado. Quem sabe at mesmo estivesse agindo assim para evitar que Deidre se afligisse demais. Contudo, a verdade era que seu ferimento no era to 
simples, pois j levara tiros antes, de raspo, e o que sentia naquele instante era mais profundo e o fizera perder muito mais sangue.
    - Por favor, Tyrone... - E Deidre foi ajud-lo a tirar a sela.
    - Estou quase terminando. -Ele arrumou o cobertor de modo a cobrir o animal.
    Deidre se aproximou, passou o brao por sua cintura para apoilo e mant-lo em p, e logo sentiu o calor e a umidade de um lquido grosso: o sangue de Tyrone.
    - Vai entrar na cabana j! - ordenou numa entonao que no admitia rplica.
    - Est bem... - Tyrone enlaou o ombro de Deidre, tentando no fazer muito peso sobre ela. - No acredito que a bala ainda esteja dentro.
    - Seria a nica coisa boa a ter acontecido esta tarde.
    Tyrone quase caiu mais de uma vez at chegarem  cabana. Deidre praticamente o carregava a cada passo. Ao entrarem, ela o fez deitar-se na cama e comeou a tirar 
a camisa que enrolava seu ferimento, encharcada de sangue. Ela sabia como cuidar daquele tipo de ferimento, mas ainda que no o desejasse, a recordao do pai morrendo 
a sua frente por aquele mesmo motivo causou-lhe um estremecimento.
    Tyrone pediu-lhe que trancasse a porta. Sabendo que ele no descansaria enquanto ela no lhe obedecesse, Deidre trancou as portas da frente e de trs, assegurando-se 
de que as janelas tambm estavam fechadas e bem trancadas.
    Quando voltou para perto de Tyrone, ele j comeara a despirse, e ela o auxiliou a terminar. Suas mos tremiam. A imagem de Patrick, tambm deitado num leito 
e banhado em sangue, no a abandonava.
    Afinal, puderam ver a extenso do estrago. Deidre compreendeu que a bala trespassara a carne do lado direito da barriga, mas no se alojara dentro do corpo. 
Isso era uma boa notcia, mas ainda teriam de lidar com a possibilidade de enfrentar infeces e febre alta.
    Ela o fez recostar a cabea no travesseiro e, apressada, foi encher uma bacia com gua. Ao voltar, rasgou uma tira da prpria combinao e passou a limpar a 
ferida at se certificar de que estava limpa o suficiente para tentar ao mximo evitar uma infeco. Em seguida foi buscar uma pomada que trazia na bolsa e que era 
excelente para desinfetar e ajudar na cicatrizao, e aplicou uma dose abundante no machucado. Ao se dar por satisfeita, foi apanhar uma camisola comprida que trazia 
na valise e a enrolou no abdome de Tyrone. Aquilo era o mximo que podia fazer no momento.
    Trouxe-lhe uma caneca d'gua e o fez erguer-se para que bebesse o lquido refrescante.
    - Beba isto - disse ela.
    Tyrone bebeu sem protestar. Deidre o ajudou a deitar-se outra vez e sentou a seu lado. -
    - Eles a machucaram? - Tyrone quis saber.
    - S uns arranhes, nada mais. Mas preciso tomar um bom banho para me livrar da imundcie de ter sido tocada por aqueles dois.
    - Fui obrigado a esperar, e queria muito que me perdoasse por isso.
    - C que quer dizer?
    - Eu vi quando a derrubaram no cho, mas tive de aguardar at um momento oportuno para atac-los, pois sabia que teria mais chance de salv-la se os pegasse 
de surpresa, num momento em que estivessem totalmente absorvidos pelo que pretendiam lhe fazer.
    - No se preocupe, Tyrone. Era um bom plano, e foi a melhor maneira de agir. Como concluiu que estvamos aqui?
    -Ainda que amaldioemos a neve, ela traz algumas vantagens. No foi difcil seguir os rastros.
    - Eu estava com tanto medo que o tivessem matado... - murmurou Deidre quase sem conseguir conter as lgrimas que lhe umedeciam os olhos. Num gesto automtico, 
nclinou-se e o beijou no rosto.
    - No  fcil matar os Callahan. - ele tentou esboar um sorriso.
    - Graas a Deus! - Deidre afastou um pouco o rosto e procurou sorrir tambm. - Acredita que eles voltaro?
    - No por enquanto. Consegui acertar o brao de Jim, e com certeza no ousaro nos atacar de novo antes de cuidar do ferimento. Com um pouco de sorte, talvez 
ainda consigamos chegar a Paradise antes de isso acontecer.
    Deidre sabia que s podia rezar para que de fato alcanassem seu destino antes de os pistoleiros tornarem a se aproximar, mas, por enquanto, era imprescindvel 
fazercom que Tyrone repousasse para se recuperar. S ento prosseguiriam.
    - Deve tentar dormir agora. Pelo menos esta noite estaremos seguros aqui.
    Deidre afagou seus cabelos, desejando que ele relaxasse um pouco. Quando por fim, cerrou as plpebras, ela foi esquentar gua para se rnpar.
    Gostaria de tomar um longo banho na tina de madeira encostada no canto, mas aquele no era o momento apropriado para se permitir tal luxo. Em vez disso, despiu-se 
e limpou-se com uma esponja dos ps  cabea, aplicando sabonete ee gua a cada ce.ntmetro do corpo. Ao se dar por satisfeita e sentindo-se livre dos vestgios 
dos pistoleiros, vestiu o roupo e retornou para perto de Tyrone. Necessitava montar guarda a seu lado e se assegurar que ele dormia para que seu corpo pudesse reagir.
    Deidre pegou o revlver e arrastou uma cadeira para se sentar ao lado do leito. Embora exausta, era difcil esquecer o pavor que ainda a dominava, mas tinha 
de se manter o mais calma possvel, e sobretudo no adormecer, pois, ainda que Tyrone tivesse razo ao dizer que os bandidos no voltariam antes de cuidar de Jim, 
ela estava consciente de que no podiam correr nenhum risco. Seriam longas horas de viglia, mas ao menos o faria em nome da segurana do homem ao qual se sentia 
to profundamente ligada. Agora chegava sua vez de proteg-lo.
    - Deidre? - murmurou Tyrone, pouco depois, como se algo o impedisse de adormecer.
    - No se preocupe, estou aqui a seu lado - afirmou com doura, tomando a mo dele entre as suas.
    - No quero adormecer e deix-la sozinha.
    Deidre teve de se esforar para no rir, pois o tom de voz dele, soava como um menino valente.
    - No se preocupe, meu querido, eu estou bem e est tudo trancado. Nos encontramos em segurana aqui. Se ouvir algum rudo ou notar algo estranho, eu o acordarei 
na mesma hora. Ficarei acordada e no deixarei que nada de mal lhe acontea-- sussurrou, muito terna, antes de tornar a beij-lo na face, sabendo que as palavras 
que dizia provinham direto de seu corao.
    
    
    Captulo IX
    
    Tyrone abriu os olhos devagar. Sorriu ao ouvir o rudo de gua escorrendo e Deidre cantarolando baixinho. Ainda fraco por causa da perda de sangue e um tanto 
zonzo por acabar de despertar, percebeu que ela se banhava e no resistiu a erguer a cabea para espiar.
    Fazia quatro dias que a febre alta roubava suas energias, obrigando-o a permanecer deitado todo o tempo, mas, mesmo assim, a viso de Deidre imersa na tina de 
madeira se esfregando com a esponja comeava a despertar seus sentidos.
    Seus cabelos ruivos estavam arranjados num coque acima da cabea, e a fragrncia de rosas inundava a cabana. Deidre era linda, e seria tolice querer compar-la 
com outras mulheres com as quais ele tivera intimidade antes. Talvez ela no ostentasse o tipo de beleza padro e fosse necessrio um minuto ou dois para se dar 
conta do quo bela de fato era, mas um homem que no o notasse no faria jus  condio masculina.
    Era um prazer observ-la banhar-se, e ele fazia um tremendo esforo para resistir ao impulso dee se levantar e tomar a esponja de suas mos a fim de massagear-lhe 
a pele muito alva. Entretanto, ela agora colocava a esponja de lado e se erguia, esticando o brao para alcanar a toalha.
    Quando Deidre afinal ficou de p, com as pernas ainda dentro da tina de madeira, Tyrone resolveu que era hora de tomara cerrar as plpebras, pois observ-la 
nua o excitava demais, e seu corpo ainda no tinha fora suficiente para se lanar  consumao de seu desejo.
    Adivinhando os movimentos dela, Tyrone soube quando Deidre terminou de se enxugar e vestiu o roupo, antes de se aproximar da cama. Assim que o tocou na testa 
para conferir a temperatura, ele a encarou.
    - Algo errado?
    - Voc est um pouco quente. - Deidre franziu as sobrancelhas.
    - No  de admirar! Voc no devia se banhar diante de um pobre sujeito invlido.
    - E voc no devia ser to indiscreto a ponto de me observar tomando banho.
    - Eu no seria exatamente uma pessoa normal se no o fizesse. - Tyrone sorriu, fazendo-a sorrir tambm.
    Deidre o ajudou a se sentar contra a cabeceira e arrumou os travesseiros em suas costas. Um pouco perturbada, reconheceu que a idia de Tyrone a observ-la enquanto 
tomava banho a excitava, e aquela constatao a fez corar. Era incrvel que aquele homem tivesse o poder de atiar seus sentidos mesmo estando doente na cama.
    - O que acha? - perguntou Tyrone, depois de Deidre ter checado o ferimento e aplicado mais um pouco da pomada que 'ajudava na limpeza e cicatrizao.
    - Est indo muito bem e sarando depressa. Pelo visto, voc  forte como um touro, sr. Callahan.
    - O suficiente para que possamos retomar viagem amanh?
    - Cedo demais para isso! Creio que ainda no  capaz de se sustentar em p sozinho.
    - Veremos. Passe-me minha cala. Pretendo visitar o banheiro l fora sem sua ajuda.
    - Tyrone! Essa foi a primeira noite em que voc no teve febre e no deve achar que j pode sair de casa sem auxilio. Acabar caindo na neve.
    - Ento  melhor voc colocar as botas e ir comigo para me fazer levantar quando eu cair.
    Sem mais, ele apanhou a cala, que notou estar pendurada na cabeceira, e, um tanto desajeitado, a vestiu. Em seguida, sorriu para Deidre e ergueu-se, num gesto 
to inesperado e que a tomou de surpresa.
    - Teimoso! - ralhou Deidre, sabendo que dali em diante no seria to fcil convenc-lo a continuar repousando.
    Com um suspiro resignado, ela foi buscar as botas e se sentou para cal-las. Ao tornar a se levantar, tomou o cachecol e o enrolou no pescoo. quela altura, 
Tyrone tambm j pusera uma camiseta e uma grossa camisa de flanela por cima.
    Deidre o apoiou at o banheiro atrs da cabana e ficou do lado de fora, tiritando de frio, esperando-o sair. Quando ele, por fim, apareceu, mais plido do que 
quando havia entrado, teve de aceitar ajuda para ir para dentro.
    Assim que se deitou de novo, contudo, seu rosto tomou a ganhar cor, e Deidre respirou aliviada. Ele no parecia estar de muito bom humor, e ela resolveu deix-lo 
sozinho e ir preparar um prato para que comesse.
    - Creio que ainda teremos de aguardar um ou dois dias antes de partir - concedeu Tyrone, contrafeito, aps se servir de grandes garfadas do feijo com bacon 
que ela trouxera.
    Tinha apetite, e isso era timo sinal, concluiu Deidre, que tambm se servira e comia tentando afastar as imagens de guisados e tortas de ma que lhe passavam 
pela cabea.
    Sorridente, resolveu retomar a conversa:
    - Pete e Jim no tomaram a aparecer, e isso  excelente.
    - Mas o clima no melhorou muito, e talvez nos impea de chegar antes do Natal, como pretendamos.
    - Contanto que consigamos estar l antes do ano-novo, nossa viagem no ter sido em vo.
    Terminaram a refeio, e Deidre recolheu os pratos e foi lavlos na pia.
    Tyrone no saberia dizer por que gostaria tanto de estar na fazenda e assegurar a propriedade da famlia antes do Natal, mas talvez inconscientemente tivesse 
o desejo de faz-lo como um presente de fim de ano que daria aos irmos e a si prprio. Seu pai lutara muito por aquelas terras, e era justo que passassem o Natal 
descansados e seguros de que a vida rdua daquele homem trabalhador no fora em vo.
    Deidre voltou para seu lado mais tarde e se puseram a jogar cartas. Ela jogava muito bem, e Tyrone foi obrigado a admitir que caso apostassem dinheiro, talvez 
ele j tivesse perdido a fazenda e as minas dos Callahan.
    - Melhor parar por aqui - Tyrone pediu quando, outra vez, Deidre abriu as cartas e ganhou mais uma rodada de pquer. - Nunca apostarei dinheiro com voc. Foi 
seu pai quem a ensinou?
    - Sim. - Deidre sorriu largo. - Papai gostava muito de pquer, mas nunca jogava por dinheiro, pois dizia ter visto muitos homens se arruinarem por causa disso. 
Patrick ensinou Maura tambm, e ela  ainda melhor do que eu.
    - E eu que pensava ser bom jogador... - Tyrone fez unia careta de frustrao.
    - E  mesmo! No pense que foi fcil venc-lo!
    Contente, ele tornou a se esticar sobre o leito. A caminhada at o banheiro na hora do almoo o deixara fraco e triste, mas agora j recuperava o nimo.
    Eles no poderiam ficar ainda vrios dias ali na cabana esperando at o ferimento cicatrizar por compieto. Tinham de seguir avante; caso contrrio, se arriscariam 
a no chegar antes do aro-novo, se o clima piorasse. Alm disso, teria tempo de sobra para repousar em Paradise.
    Deidre guardou as cartas e arrumou algumas roupas que deixara sobre a cadeira para tomar ar. Em seguida, alimentou o fogo da lareira, notando que Tyrone cochilava.
    Algum tempo se passou e, ao escurecer, ele despertou ao ouvir o rudo da porta dos fundos se abrindo e Deidre entrando em casa. Agora, ela comeava a checar 
se as portas e janelas se achavam bem trancadas, e pouco depois veio, enfim, deitar-se a seu lado sob as cobertas.
    Tyrone a abraou e gostaria de fazer amor, mas reconhecia que ainda no estava vigoroso o suficiente para faz-lo direito e com ardor, proporcionando-lhe o prazer 
que Deidre merecia.
    De repente, ela comeou a rir, mas antes de Tyrone perguntar o motivo, encostou seus ps nos dele.
    - Meu Deus! - gritou Tyrone. - Seus ps parecem dois blocos de gelo! Por acaso andou descala na neve?
    - Claro que no. - Deidre ainda ria. - Mas faz muito frio l fora, e eu s coloquei a bota para sair, pois estava com preguia de enfiar as meias de l.
    - Esses ps gelados so suficientes para fazer um morto ressuscitar!
    - Sinto muito! - Ela gargalhou.
    - Sente nada! - Tyrone se fingia de zangado.
    - Creio que voc vai querer nos fazer enfrentar o frio outra vez amanh, no ?
    -  necessrio; sabe bem disso.
    Deidre se virou de lado e colou o corpo no de Tyrone. Ele a abraou pela cintura, puxando-a ainda mais para junto de si e fazendo-a sentir que algumas partes 
de sua anatomia haviam recobrado a fora total.
    A proximidade a excitava, e Deidre estava um pouco frustrada por no ser possvel fazerem amor, pois ainda era cedo demais para isso. Contudo, o que a incomodava 
mesmo no era esperar at Tyrone estar completamente restabelecido, mas sim a idia de que a cada dia que passava a viagem se aproximava de seu fim. Era fato que 
nada lhe fazia crer que o caso que agora viviam fosse ter continuidade quando alcanassem o destino final.
    Em alguns momentos Deidre captava um tom de ternura em sua voz ou um brilho de afeto iluminando os olhos do amante, mas nada garantia que Tyrone no fosse assim 
com as mulheres que tivera antes. Alm do mais, mera afeio no seria suficiente para mant-los juntos, e ela teria de estar preparada para se separar dele, se 
necessrio.
    Aos poucos a respirao de Tyrone foi se tornando mais profunda e relaxada, indicando que comeava a cair no sono. Deidre adorava aquela sensao de estarem 
juntos num abrao aconchegante, pois tais momentos eram to preciosos quanto o prazer sexual que eram capazes de proporcionar um ao outro.
    Ele a apertava contra si como se no quisesse deix-la escapar enquanto dormia, e aquilo proporcionava uma sensao de segurana e conforto.
    Automaticamente, a respirao de Deidre se ajustou  de Tyrone, e logo seus corpos pareciam dividir os mesmos movimentos de inspirao e expirao. A harmonia 
era total, mas ela mantinha a conscincia de que era necessrio lutar contra sonhos de amor e harmonia entre eles, pois nada dizia que a vida seguiria tal rumo. 
O inverno era rigoroso, e tambm os animais colavam-se uns aos outros num impulso natural para manter o calor. Portanto, aquele abrao talvez no significasse muito 
mais do que isso, e os bichos da floresta se comportariam da mesma forma.
    O rumo que as coisas tomaram era triste e divertido ao mesmo tempo. Deidre iniciara a viagem desejando atingir Paradise o quanto antes, mas agora gostaria de 
adiar o momento da chegada. Se os Callahan no fossem perder tudo o que possuam caso no chegassem antes de primeiro de janeiro e se Maura talvez j no a estivesse 
esperando, Deidre faria tudo para prolongar a viagem tanto quanto possvel.
    Soltando um profundo suspiro, colocou a mo sobre a de Tyrone, que repousava de barriga para baixo. At mesmo essa inocente proximidade poderia em breve terminar, 
e s restariam lembranas dos tantos momentos doces que partilharam.
    
    A paixo tomou conta de Deidre quando ela despertou sentindo os beijos de Tyrone em seus seios e suas mos lhe tocando o ventre, as coxas e as pernas. Sem conseguirem 
se conter, ambos estavam prontos para receber  tomar um ao outro, e em breve seus corpos se fundiam num s, atingindo um xtase incrvel e simultneo que durante 
muitos dias no puderam viver.
    Permaneceram ainda abraados por instantes aps consumada a paixo. Aquela era a segunda manh em que Tyrone amanhecia sem febre, e talvez ainda devesse resguardar 
as energias, mas era difcil no ceder ao desejo e  necessidade que tinham um do outro. Contudo, ele dava a impresso de ter se recuperado bem, e a maneira como 
a amara revelava um homem sadio e vigoroso, com muita energia para dar e vender.
    Afinal, Tyrone se afastou um pouco, rolando para o lado, apoiou o cotovelo no colcho e ergueu o tronco para fit-la.
    - Senti muita falta disso - afirmou, sorrindo. - Espero que no me censure por t-lo feito.
    - No o censuro pelo que fez, mas no posso dizer que apreciarei o que tenho certeza de que vai sugerir que faamos daqui a pouco.
    Tyrone deixou o leito, pesaroso, e comeou a se vestir devagar antes de recomear a falar:
    - Sabe que no podemos nos demorar mais, Deidre.
    - Sim, eu sei. Mas voc ainda est fraco, e o ferimento no cicatrizou por completo.
    - Isso  verdade, mas no podemos ficar aqui e esperar at que isso acontea, seno no conseguiremos chegar a Paradise antes de primeiro de janeiro. Sei que 
no poderemos avanar com rapidez, pois no posso cavalgar em grande velocidade, e talvez at mesmo sejamos obrigados a parar antes do escurecer, mas ao menos estaremos 
nos aproximando de nosso destino e daquele cartrio de registro de escrituras que no aceitar nem um dia de atraso.
    Deidre assentiu com a cabea. Tyrone tinha razo.
    Quando ele terminou de se vestir e saiu pela porta dos fundos, ela se levantou para pr a roupa. Seria impossvel discutir para convenc-lo a descansar ainda 
um dia ou dois, mas era compreensvel: Tyrone no podia correr o risco de fazer a famlia perder tudo o que o pai construra em anos e anos de trabalho rduo. Ainda 
que desejasse passar o dia inteiro deitada com ele no leito da cabana aquecida pela lareira, o momento da partida chegara.
    Deidre j estava vestida quando Tyrone voltou, e agora era sua vez de sair e usar o banheiro. Ao retornar, pouco depois, o delicioso aroma de caf deu-lhe gua 
na boca. Tyrone ocupava-se em terminar de preparar a refeio matinal, que mais uma vez consistia em feijo com bacon. Ele se mostrava bem-humorado, com unia cor 
saudvel no rosto, mas Deidre no pde deixar de fit-lo com certa preocupao.
    - Estou bem - Tyrone assegurou, dando-lhe um suave a carinhoso beijo na ponta do nariz e puxando a cadeira para que se sentasse em frente ao prato que a esperava. 
- No  necessrio se preocupar.
    - Estou tentando no me afligir. - Ela tomou um gole de caf e deu a primeira garfada. - Mas tem de reconhecer que no  fcil.
    - Deidre, eu tambm preferiria permanecer aqui e desfrutar de sua companhia at me sentir em ordem de novo. Sentar-me na sela de um cavalo e enfrentar o frio 
l fora no  o que mais desejo na vida, mas voc sabe que no h sada: temos algo muito importante a fazer, e no posso correr o risco de ver meus irmos perderem 
tudo apenas porque em mais alguns dias irei me restabelecer totalmente.
    - Eu sei, Tyrone, voc tem razo. No pedirei que fiquemos aqui mais um pouco, mas quero que me prometa que no exigir demais de si mesmo e que tomaremos a 
descansar, se necessrio. No acredito que o ferimento tomar a abrir, mas  uma possibilidade. E se a febre voltar, vamos parar e esperar passar outra vez.
    - No se preocupe, avanaremos com cuidado, e saberei prestar ateno aos pedidos que meu corpo fizer. No me sacrificarei.
    Dali em diante, comeram em silncio. Deidre dissera o que pensava e tinha de confiar em Tyrone. Mas mesmo assim o fitava de soslaio para se certificar de que 
exibia sinais de estar mesmo recuperado o suficiente para prosseguirem. Afinal, os homens eram conhecidos por evitar reconhecer que estavam enfermos, e Tyrone no 
devia ser exceo  regra.
    - Quanto tempo ainda levaremos para chegar a Paradise? - perguntou Deidre, quando finalmente terminou a refeio.
    - Uma semana ou duas. Se o clima piorar e nos obrigar a avanar com mais lentido, sem dvida duas semanas.
    - Nunca imaginei que Montana ficasse to longe do Missouri!
    - No demora tanto se o trajeto for feito por trem ou carruagem, mas quando o fazemos a cavalo... Poderemos tomar alguns desvios e atalhos, mas tambm teremos 
de parar para os animais se alimentarem e descansarem.
    - Espero que haja estbulos confortveis para esses cavalos, que nos acompanham por tantos dias e ainda nos levaro a nosso destino final. - Deidre sorriu.
    - Sero tratados como reis, pois  o mnimo que merecem se conseguirem nos fazer chegar a Paradise dentro do prazo.
    Deidre limpou os pratos enquanto Tyrone aprontava as valises que seriam amarradas s selas. Em seguida, ele apagou o fogo da lareira, certificando-se de que 
nenhuma brasa continuava acesa para evitar o perigo de incendiar a cabana.
    Logo os dois rumavam para o pequeno coberto onde os cavalos estavam amarrados. As valises foram amarradas s selas e, com tudo pronto para partirem, Tyrone se 
aproximou de Deidre para ajud-la a montar.
    - Espero que meu irmo Mitchell e sua prima Maura no estejam passando dificuldades, nem tenham de enfrentar muito frio.
    - Acha mesmo que esto juntos?
    - Espero que sim, Deidre. Gostaria muito que Maura estivesse acompanhada de um homem que possa ajud-la a se proteger. Mas algo me diz que eles se encontraram 
e no se separaram desde ento.
    - Tomara que os Martin no tenham colocado pistoleiros para checar a rota de trem. E que sua intuio esteja correta e seu irmo de fato tenha encontrado minha 
prima.
    - Voc e Maura se querem muito, no ?
    - Minha prima  tudo o que resta de minha famlia. Minha me morreu quando eu tinha dez anos, e em seguida todos os nossos outros parentes morreram tambm, pouco 
a pouco. Houve pocas em que parecia que tudo o que fazamos era ir a funerais. - Deidre exalou um longo suspiro. - Mas agora chega de recordaes tristes,  hora 
de partir.
    - Isso mesmo. - Tyrone montou com um movimento cuidadoso para no reavivar o ferimento.
    Assim que se puseram em marcha, Deidre se virou para fitar a casinha de madeira pela ltima vez, feliz ao partir daquele lugar onde vivera tantos momentos de 
medo e terror, e tivera at de enfrentar a possibilidade de que Tyrone estivesse morto. Pelo menos a viagem era reiniciada com ambos de bom humor, e ela ia aproveitar 
ao mximo os pequenos prazeres que os dias vindouros pudessem trazer, apesar do desconforto das horas sentada no lombo de um cavalo, alm do frio e do vento gelado 
que teimavam em penetrar pela roupa.
    O Natal se aproximava, e era seu feriado favorito. Contudo, aquele seria o primeiro ano em que no teria o pai a seu lado para comemorar, e s podia ter a esperana 
de que Maura chegasse a tempo. Se estivermos em Paradise antes do Natal...
    
    
    Capitulo X
    
    Apesar de no querer tornar a faz-lo, Deidre tornou a conferir o estado de Tyrone, que cavalgava calado. Uma semana se passara, e ele dava sinais de exausto, 
mas isso era de esperar, pois ainda estava se reabilitando. O ferimento cicatrizava, ainda que em ritmo mais lento, mas sem dvida em breve estaria curado.
    - No demorar muito para chegarmos - anunciou Tyrone, com um sorriso cansado.
    - Aonde? No a Paradise, suponho.
    - No, no a Paradise. Logo  frente temos a fazenda dos Trs Anjos, onde vive Jason Brooker, um amigo meu e de minha famlia.
    - Fazenda dos Trs Anjos? Que nome estranho...
    - Faz meno s trs tias que criaram Jason e o ajudaram a estabelecer e desenvolver o rancho. So senhoras muito boas e se chamam Flora, Dora e Cora Brooker. 
So idosas, mas devem ter sido muito bonitas quando jovens. Pergunto-me por que nunca se casaram.
    - Talvez por causa da guerra civil. Muitos homens morreram em combate deixando esposas e noivas sozinhas. H muitas senhoras solteiras em Saint Louis que tambm 
eram belas, simpticas e gentis o bastante para terem se casado quando novas, mas todas perderam os noivos na guerra. No se podem enviar tantos homens para combater 
sem sofrer as conseqncias.
    - Nunca me ocorreu que talvez fosse esse o motivo de continuarem solteiras.
    - Tinha medo de parecer rude demais se perguntasse a elas?
    - Sim. Voc teria coragem de indagar?
    - Quem sabe? A curiosidade  um de meus defeitos, e quando vejo uma senhora bonita e simptica que jamais se casou, acabo perguntando a razo, se surge a oportunidade.
    A conversa morreu por minutos. O sol brilhava plido e no havia vento, o que diminua a intensidade da friagem.
    - Est um pouco menos frio hoje, no acha?
    - De fato. Sabe, Deidre... devo dizer que estou outra vez com aquele sentimento de que estamos sendo seguidos.
    Ela olhou por sobre um ombro, e no notou nada de anormal. Mas confiava na intuio de Tyrone, que j havia provado estar correta antes.
    - Quanto tempo ainda falta para chegarmos  fazenda de seu amigo?
    - Mais ou menos oito quilmetros.
    - Acha que ele pode lidar com o problema e colaborar conosco se estiverem em nosso encalo?
    - Tenho certeza absoluta.
    Tyrone apressou a montaria, e Deidre o imitou. Talvez fosse bobagem comear a correr s por causa de uma sensao, mas a verdade era que Tyrone confiava em seus 
instintos, e sabia que mais cedo ou mais tarde seriam atacados de novo. De qualquer forma, a fazenda de Jason Brooker estava prxima, e poderiam forar os cavalos 
a galopar sem o risco de exauri-los, pois logo poderiam repousar.
    Um capataz j os aguardava na porteira, na certa alertado pelo rudo de galope se aproximando. Ao longe e no topo de uma pequena elevao se via a casa principal, 
onde outros homens esperavam. Todos armados e prontos para atacar ou se defender.
    Os primeiros estampidos soaram quando Tyrone e Deidre se achavam a poucos metros da entrada. Ainda bem que a grande porteira de madeira j se abrira, e eles 
puderam entrar sem ter de parar. Mas os tiros assustaram demais os cavalos. Tyrone ainda tentou controlar as rdeas da montaria de Deidre, mas no foi capaz. Outros 
disparos soaram, e um deles acertou o cavalo dela de raspo, e o animal partiu em desabalada catreird, deixando Tyrone para trs. Pior que isso, um dos ltimos tiros 
acertou o homem que lhes abrira a porteira, e ele foi ao cho.
    Por sorte, o cavalo de Deidre correu em direo  casa. Foi quando Tyrone avistou seu amigo Jason, que, erguendo os braos no ar, deteve a montaria de Deidre. 
Aliviado por v-la em segurana, Tyrone parou, desmontou e se arrastou pelo solo, para conferir o estado do homem que os recebera e fora atingido. Graas aos Cus, 
o ferimento no era grave, pois a bala no o acertara em cheio.
    - Quase me pegaram! - O capataz desatou uma tira de couro que trazia presa no chapu de vaqueiro e a amarrou na perna para estancar o sangue. - Afinal de contas, 
quem so vocs?!
    - Meu nome  Tyrone Callahan. - Observava umas rvores, no muito distante, e distinguiu o reflexo no metal de um revlver.
    Seus agressores estavam prximos e usavam as rvores para se esconder.
    - J ouvi falar de voc, sei que  amigo de Jason. Meu nome  Tom. - Apontou um pouco adiante. -Trouxe aqueles bandidos para uma visita?
    - Infelizmente, sim, apesar de ter conseguido acertar um deles. Cheguei a achar que talvez pudesse me ver livre.
    - H quanto tempo o esto seguindo?
    - Faz semanas. - Tyrone tentava fazer pontaria. -  uma surpresa que nos tenham atacado to perto da fazenda, pois sabem que aqui estaro em nmero desfavorvel.
    - Talvez estejam desesperados.
    Tyrone sorriu, mas sabia que havia um fundo de verdade no que acabara de ouvir. Deviam ser Jim e Pete outra vez. Eles deviam estar frustrados demais por no 
terem capturado Deidre e ele, e agora temeriam perder a gorda recompensa que os Martin lhe haviam oferecido. No entanto, as concluses teriam de ficar para depois, 
porque outros tiros soaram, obrigando Tyrone a abaixar a cabea e encostar o rosto na terra gelada. Entretanto, Tom j erguia o revlver e disparava tambm, respondendo 
ao ataque.
    - Pelo menos a dama que o acompanha est segura - disse Tom. - No se preocupe, num instante Jason chegar aqui com mais gente, e esses miserveis tero que 
fugir se no quiserem problemas.
    De fato Jason Brooker e dois outros caubis chegaram cavalgando, sem se importar com o fato de que podiam ser atingidos, e pararam ao lado de Tyrone e Tom, deitados 
no solo.
    Jason Brooker era alto e forte, e seus cabelos, longos e loiros. Ali estava um homem corajoso, que no tinha medo de enfrentar o perigo. Tyrone sabia disso, 
e agora ele o provava mais uma vez.
    Jason sorriu para Tyrone. Um dia ainda vou descobrir se meu amigo  dono de bravura e coragem excepcionais ou  simplesmente louco.
    - Quer que os traga vivos, Ty?
    -  uma lstima, mas creio que s vo parar de perseguir a mim e Deidre quando estiverem mortos.
    - No se preocupe - assegurou Jason. - Fiquem aqui e mantenham-se protegidos. Voltaremos num instante.
    Tyrone no teve tempo de protestar, nem de tomar a montar para auxiliar Jason. Afinal, fora ele quem trouxera aqueles pistoleiros em seus calcanhares, e se sentia 
na obrigao de colaborar em sua captura. Todavia, Jason j dava ordens aos vaqueiros para que o seguissem, e no instante seguinte os trs disparavam a galope em 
direo s rvores, onde Jim e Pete se escondiam.
    - Pelo jeito, no ser necessrio correr para ajud-los.
    - Sossegue. - Tom meneou a cabea. - Jason, Carl e Joe cuidaro deles, e os trs estaro bebendo limonada na varanda antes de voc conseguir se levantar da.
    O que se passou a seguir aconteceu muito rpido e sem dar tempo a Tyrone tomar alguma outra atitude. Muitos estampidos cruzaram o ar, mas logo a quietude voltou 
a reinar. E tanto Jason quanto seus amigos surgiram com seus cavalos, indicando que haviam vencido a refrega.
    Tyrone ajudava Tom a se por em p quando Jason Brooker retornou. Seus amigos vinham logo atrs, trazendo dois cavalos com os corpos dos bandidos estendidos sobre 
as selas.
    Aos se aproximarem, Tyrone no teve dvidas de que se tratava de Jim e Pete, agora mortos. Apesar da violncia da situao, no pde deixar de se sentir aliviado, 
pois aqueles bandidos no mais representavam perigo. Afinal, depois do que tentaram fazer com Deidre, no existia motivo para se apiedar.
    Na realidade, incomodava-o o fato de no ter sido ele mesmo a fazer justia e acabar com aqueles dois, mas o mais importante era que agora poderiam seguir viagem 
para Paradise com toda a tranqilidade.
    - No disse que resolveramos tudo num instante? - Jason esboava um enorme sorriso, que tornava seu rosto ainda maior e mais forte. - Vamos para o rancho, pois 
quero que me apresente  mulher que o acompanha. Pretendem ficar bastante tempo?
    - Uma noite ou duas no mximo. Tenho de chegar a Paradise o quanto antes.
    Ao montar de novo em seu cavalo, Tyrone no tinha mais tanta certeza de que tinha sido uma boa idia ter vindo para a fazenda de Jason Brooker, pois a maneira 
como o amigo se referira a Deidre deixara transparecer um certo interesse de sua parte. Tyrone vira aquele brilho nos olhos do amigo em outras ocasies, assim como 
aquela expresso, que muitas mulheres consideravam irresistvel.
    Emparelhou com Jason e foram juntos para a casa. Os demais homens ficaram para trs para cuidar dos cadveres.
    Da janela, Deidre avistou Tyrone se aproximando, acompanhado de um homem imenso, alto e com longos cabelos loiros. Apressada, correu a encontr-los e desceu 
os degraus da varanda, fitando Tyrone, que j desmontava.
    - Voc est bem?
    - Sim, Deidre, no se preocupe - ele afirmou.
    - Jim e Pete? - Ela olhava os dois corpos estendidos sobre os cavalos, ao longe.
    - Sim. No criaro mais problemas.
    Tyrone se aproximou dela e enlaou-lhe o ombro num gesto possessivo, assim que Jason tambm desmontou, vindo at eles muito sorridente.
    - Quero que conhea Jason Brooker, o dono desta fazenda. Jason, esta  Deidre Kenney.
    Jason tomou a mo de Deidre e a beijou. Tyrone franziu a sobrancelha ao ver Deidre corar como uma menininha.
    - Prazer em conhec-lo, sr. Brooker - cumprimentou-o, educada, sem compreender por que Jason sorria daquela forma e por que Tyrone parecia to desconfortvel.
    - Pode me chamar de Jason. Vamos entrar. Vou providenciar um quarto para que possa trocar de roupa e descansar da longa viagem. Teremos tempo para conversar 
durante o jantar.
    Deidre estava to feliz com a expectativa de tomar um banho quente que mal notou a maneira como Jason Brooker a puxou para longe de Tyrone e, tomando-a pelo 
brao, a conduziu para a sala.
    O aroma de comida caseira dominava o grande salo principal. Deidre sentiu a boca cheia d'gua ao antecipar a deliciosa refeio que iria desfrutar naquela noite. 
Pouco depois, uma empregada se aproximou e a conduziu ao quarto onde iria se acomodar.
    O humor de Tyrone no era dos melhores ao se juntar a Jason na sala de visitas para tomarem um drinque antes do jantar. Fora colocado num quarto longe do de 
Deidre, e os aposentos das trs tias do amigo ficavam no mesmo corredor, entre seus aposentos e o dela.
    - Estou surpreso que no tenha me colocado para dormir l fora - comeou Tyrone, ao se sentar defronte de Jason e aceitar o copo de usque que o amigo lhe passava.
    - Cheguei a considerar isso, mas preferi no faz-lo. - Jason sorriu-lhe, e seus olhos azuis brilhavam, marotos.
    - Ela  minha!
    - Devia ter me avisado que eram casados. Assim eu os teria instalado no mesmo aposento. Contudo, vejo que no usam aliana.
    - Sim, mas ela  minha do mesmo jeito.
    - Desde quando?
    Tyrone ficou confuso. Na verdade, no havia pensado muito se pretendia ou no levar a relao com Deidre adiante, e at aquele momento dissera a si mesmo que, 
caso ela continuasse a interess-lo depois de chegarem a Paradise, resolveria o que fazer. Entretanto, agora se sentia arrogante por pensar dessa maneira, e talvez 
viesse a se arrepender amargamente se Deidre se deixasse influenciar pelos encantos de Jason Brooker.
    - Isso s interessa a Deidre e a mim.
    - Sabe que no h muitas mulheres solteiras e bonitas aqui no Oeste e que a nica maneira de manter o respeito  usar uma aliana. E por vezes nem mesmo isso 
basta. - Jason piscou-lhe. - Nunca me pareceu muito ligado a nenhuma outra mulher, meu velho amigo. Creio que devia se perguntar por que se sente assim agora.
    Jason parou de falar, pois ouviu algum se aproximando.
    - Deve ser sua companheira quem vem vindo. E minhas tias tambm no tardaro a aparecer.
    Ao adentrar a sala de visitas lindamente mobiliada Deidre logo notou uma certa tenso no ar. Porm, Jason lhe serviu um clice de vinho suave, e Tyrone sorriu, 
e aquilo a fez imaginar que na certa havia se enganado quanto a sua impresso.
    Em breve, trs adorveis senhoras surgiram, usando belos vestidos adornados com renda e se comportando com fina educao. Eram muito parecidas entre si, e seus 
olhinhos to azuis quanto os de Jason brilhavam com um ar vivaz e perspicaz.
    As trs irms se encantaram ao rever Tyrone, que deviam conhecer havia muitos anos. Fizeram inmeras perguntas a respeito da famlia Callahan, de sua fazenda 
e muito mais, e no pareciam envergonhadas por se mostrarem to curiosas.
    Dirigiram-se para a sala de jantar, mais tarde, e Deidre se indagava por que no quiseram saber tambm a respeito da relao que a unia a Tyrone Callahan.
    Aps o delicioso jantar, quando a sobremesa de torta de ma foi servida, Deidre resolveu fazer um comentrio divertido sobre isso:
    - As senhoras poderiam causar inveja  Inquisio espanhola! - brincou.
    -  um antigo hbito de nossa famlia. - Flora abanou a mo. - Recebemos nossas visitas com carinho, lhes servimos bastante comida e os vinhos mais finos, e 
enquanto isso procuramos arrancar delas o mximo de informaes possvel. - Piscou para Deidre, divertida. - A verdade  que no somos visitadas com freqncia, 
e apreciamos a oportunidade de saber o que acontece com nossos amigos no mundo fora da fazenda.
    - Mas se tem de faz-lo com bom humor e muita calma, apesar de no pararmos com as perguntas. - Cora, que parecia a menos idosa das trs, usava um vestido azul-claro 
muito charmoso.
    - Calma, bom humor e deliberao. - Tyrone se virou para Jason com um sorriso. - Pelo visto, meu amigo aprendeu muito bem a lio.
    - Nosso querido menino sempre fez jus a tudo o que lhe ensinamos.
    Deidre reprimiu a vontade de rir pela maneira como Cora se referia quele homem to grande e vigoroso.
    Todos os membros daquela famlia lhe pareciam muito inteligentes, e sem dvida sabiam o que faziam. Mesmo Jason Brooker demonstrava grande perspiccia e esperteza, 
que, de alguma maneira, no se esperaria de um homem to robusto. Era evidente que possua grande capacidade de mando e sabia controlar as situaes, mas seu sorriso 
franco e gentil revelava simpatia e generosidade. Ele tambm fizera muitas indagaes, mas seu tom sempre amigvel acabava desarmando o ouvinte, que talvez no fornecesse 
tantas respostas se parasse para pensar duas vezes.
    - Espero que o resto de nossa viagem a Paradise seja mais tranqilo, agora que Jim e Pete esto mortos. - Deidre suspirou. - Sei que  um pouco tolo de minha 
parte, mas tenho pena deles, apesar de sua pretenso em nos matar. Creio que no estou acostumada  violncia, nem a gente como os Martin, que se dispem a contratar 
pistoleiros para conquistar o que no lhes pertence.
    - H muitas pessoas assim no mundo. - Dora meneou a cabea.
    - Contudo, ainda no vencemos. - Tyrone detestava ter de, mais uma vez, afligir Deidre. - Os Martin so espertos e, mesmo tendo contratado matadores para nos 
capturar, garanto que observaro nossa chegada preparados para fazer o que for necessrio, se notarem que ainda temos os documentos de posse.
    - Mas no faro nada drstico se estivermos na cidade, no ? Eles sabem que no podem ter testemunhas de seus crimes, e l haver muitas. Se forem desmascarados, 
suas transaes sero questionadas, e essa deve ser a ltima coisa que querem que acontea. Se no tomarem cuidado, os rumores que correm a respeito deles se confirmaro, 
e o juiz e a Justia viro em seu encalo.
    - No tenho tanta certeza disso. - Jason a encarou. - Pelo que nos contaram, os Martin possuem enorme poder de influncia em Paradise, e no sei se ainda h 
muita gente que se disponha a desafi-los. Acredito at que muitos oferecero solidariedade e amizade a vocs, mas ho de preferir se manter seguros, garantindo 
a prpria integridade.
    - A questo  que os Martin so muito inteligentes, Deidre. - Tyrone tamborilou os dedos no tampo da mesa. - Sempre contratam gente de fora para fazer o servio 
sujo e nunca tentam algo dentro dos limites da cidade. Apesar dos meios abjetos que utilizam, agem de maneira a no deixar provas ou indcios que possam vir a ser 
utilizados contra eles. Correriam um risco enorme ao nos matar perto de Paradise, mas o fato  que nossas propriedades os interessam demais, e estaremos tirando 
um prmio muito alto de suas mos.  possvel que isso os faa decidir que vale a pena se arriscar mais ainda para nos vencer.
    - Enviarei alguns de meus homens para proteg-los - afirmou Jason.
    - Agradecemos muito. - Deidre sorriu com meiguice. Todos foram para a saleta para degustar um licor, perto da lareira.
    A conversa flua naturalmente e todos se divertiam. Como timo anfitrio que era, Jason no tardou a servir mais licor para todos, fazendo questo de que Deidre 
experimentasse a bebida que ele dizia ser a mais especial de todas.
    Jason comeava a flertar com ela de maneira um tanto desinibida demais, com profusos sorrisos e fitando-a direto nos olhos sem cessar. Aquilo no a incomodava, 
mas ela logo notou que Tyrone no apreciava a atitude do amigo, e aquilo encheu seu corao de calor. Ser que estava com cime? E, caso estivesse, aquilo significaria 
que seus sentimentos por ela se aprofundavam?
    Bem, era melhor no nutrir muitas esperanas de que assim fosse, pois os homens so possessivos e no gostam quando surge um possvel rival por perto. O fato 
era que a viagem se aproximava cada vez mais do final, e nada de fato lhe dizia que Tyrone intencionava assumir algo mais duradouro e srio entre eles.
    Deidre ficou triste. Assim, logo pediu licena, dizendo estar exausta, e se recolheu. Em breve ela deitava sob os cobertores da enorme cama fofa e aconchegante 
com lenis cheirando a flores, sabendo que ia passar a noite sozinha. Contudo, era melhor que fosse desse modo, pois se sentiria muito mal ao perpetrar atos escandalosos 
na residncia de uma famlia que os recebera com tanta simpatia e carinho.
    Ainda por cima, e mais importante que tudo, uma voz em seu corao dizia que era hora de passar a se distanciar de Tyrone Callahan. Sim, era melhor comear a 
faz-lo desde j, apesar de no ter nenhuma certeza de que isso iria diminuir a dor que sentiria caso ele acabasse por rejeit-la.
    
    Jason sorriu quando, ao acompanhar Tyrone at seu quarto, notou que ele fitava a porta do aposento de Deidre, no fundo do corredor. As trs tias j se haviam 
recolhido, e naquele instante, os homens tambm iam se deitar.
    - Hoje no - murmurou Jason.
    - Acha que eu desrespeitaria o lar de vocs? - Tyrone fingiu-se magoado.
    Para ser franco, resolvera se comportar aquela noite, e no tentaria se esgueirar para o quarto de Deidre, apesar da enorme tentao.
    - Voc sabe que eu no me importaria, pois tambm sou homem, e somos amigos h muitos anos. Mas a questo  a reao de minhas tias. No creio que diriam algo, 
mas garanto que iriam se sentir desconfortveis.
    - Deidre tambm, posso lhe assegurar, Jason.
    - Estou certo disso. Apesar de voc t-la seduzido, Deidre ainda tem uma genuna inocncia e se comporta como uma dama. Tenho certeza de que no o faz por fingimento, 
pois seus olhos so lmpidos e brilham com honestidade. Posso dizer o que penso?
    - Prefiro no saber, mas ir me falar assim mesmo, no ?
    - Adivinhou! - Jason o encarou. - Case-se com ela.
    - Talvez eu no esteja interessado em me casar.
    -  possvel que ainda no, por falta de oportunidade. No entanto, escute o que lhe digo: um dia ir acordar pela manh e pensar em tudo o que tem e construiu, 
e vai querer algum com seu sangue para usufruir do resultado de seu trabalho. Quando esse dia chegar, atrevo-me a dizer que se lembrar de Deidre, caso a deixe 
ir embora quando chegarem a Paradise. Digo-lhe uma coisa, homem: se permitir que ela se v, no sero necessrios mais do que dez minutos para voc se arrepender, 
depois de t-la visto sumir na estrada.
    - Pode ser que tenha razo, Jason. Suponho que vai querer vir para a festa de casamento e tentar encontrar algum para si.
    - Evidente que sim! Voc disse que ela tem uma prima, no ?
    - Tire essa idia da cabea! Espero que meu irmo tenha encontrado a prima de Deidre, e se Maura for a metade da mulher que Deidre , Mitchell seria um tolo 
em no considerar casar-se tambm.
    - Ao menos isso comprova que sei julgar bem. 
    - Como assim?
    - Sempre acreditei que os meninos Callahan eram espertos! - Jason deu-lhe um tapa carinhoso nas costas.
    - S posso esperar que Deidre me aprecie o suficiente para dizer sim.
    - No tenho dvida de que o far.. - Por que tem tanta certeza?
    - Confie em mim! Aquela moa s est esperando voc lhe fazer a proposta... e eu no perderia tempo, se estivesse em seu lugar.
    
    
    Captulo XI
    
    - Um tren?! Que maravilha! - exclamou Deidre, encantada, ao sair para a varanda da enorme casa da fazenda e contemplar o veculo que os transportaria pelo resto 
da viagem. - S andei uma vez de tren at hoje e adorei!
    Tyrone sentiu o estado de esprito melhorar ao testemunhar a satisfao de Deidre. Nevara muito na noite em que chegaram  propriedade de Jason e durante grande 
parte do dia seguinte, o quee os obrigou a pernoitar l mais uma vez. Ainda tinham tempo de chegar a Paradise para o Natal, mas o que de fato o incomodava era ter 
tido de passar duas noites longe do calor e prazer que a proximidade do corpo de Deidre proporcionava. O nico momento em que ela o tocou desde que chegaram foi 
quando tratou de seu ferimento, mas as trs senhoras e Jason se mantiveram postados ao lado, e o contato se resumiu  troca de curativos e aplicao de mais pomada.
    Entretanto, a reao to feliz de Deidre ao ver o veculo desanuviava seu humor e colocava para trs a frustrao de ter tido de esperar ainda mais um dia sem 
t-la perto de si.
    - Se a estrada estiver desimpedida e no houver rvores cadas ou coisas do gnero, alcanaremos Paradise em poucas horas - disse ele, tomando a mo de Deidre 
e conduzindo-a para o tren.
    - Se conseguirmos avanar rpido, talvez tenhamos chance de seguir para o cartrio de registro de propriedades ainda hoje.
    A alegria que ela sentira ao ver o tren comeou a se dissipar rpido ao ouvir o comentrio de Tyrone. O que aconteceria depois de levarem a bom termo a tarefa 
que os fizera se conhecer e dividir tantos momentos juntos?
    Todavia, Deidre resolveu que jamais questionaria Tyrone a respeito do futuro, nem lhe perguntaria que planos tinha. Caso Maura ainda no estivesse em Paradise, 
ento ela esperaria a chegada da prima, e quando isso acontecesse se aprontaria para retornar a Saint Louis, se Tyrone no tomasse a iniciativa de propor algo que 
fosse alm de fazer amor muitas vezes na mesma noite. Resoluta, no tinha a menor vontade de ficar arrastando sua permanncia entre os Callahan na esperana de que 
ele mudasse de opinio.
    Aps agradecer a hospitalidade e se despedir dos Brooker abraando as simpticas senhoras, Deidre tomou assento no tren.
    Tyrone se aproximou e a cobriu com a manta de l que as tias fizeram questo de fornecer para esquentar Deidre, mas mesmo o gesto carinhoso no foi bastante 
para acalmar seu corao. Tyrone continuava preocupado com seu bem-estar e conforto, mas fora assim desde o princpio, e no significava nada de novo.
    Sem demora, partiram, e Deidre se sentiu grata pela grossa manta que a encobria por cima dos pesados agasalhos de l que usava. As tias de Jason haviam tido 
at mesmo o cuidado de colocar uma pedra aquecida a seus ps, mas o frio era intenso demais e penetrava por onde fosse possvel.
    Seguindo sozinha no tren, Deidre no pde deixar de se apiedar de Tyrone e dos demais homens, que estavam expostos ao gelo muito mais do que ela.
    Depois de horas que pareceram interminveis, a cidade de Paradise, enfim, surgiu a distncia. O alvio transpareceu na expresso de todos e, mesmo tendo em mente 
que a viagem agora definitivamente terminava, Deidre s pensava que tudo o que desejava era poder entrar numa casa quente e aconchegante outra vez.
    O tren parou em frente a um casaro de dois andares um pouco afastado do centro do vilarejo, e Tyrone desmontou, fazendo um sinal para ela esperar sentada, 
enquanto ele combinava com os caubis de Jason o que deviam fazer em seguida.
    Ignorando os protestos dos amigveis acompanhantes que pretendiam retornar no mesmo instante, Tyrone fez questo de prover-lhes fundos para que comessem e pernoitassem 
no hotel, deixando para voltar para a fazenda dos Trs Anjos na manh do dia seguinte. Tyrone ainda lhes agradeceu de corao pelo excelente servio prestado, e 
s retornou para Deidre quando os rapazes se foram em direo ao hotel.
    Os homens de Jason mal haviam desaparecido quando a porta da frente do casaro se abriu e um homem veio ter com eles. Alto, forte e com os mesmos traos atraentes 
de Tyrone, estava claro que se tratava de seu irmo, decerto o mais jovem dos trs. Num gesto automtico, Tyrone tornou a deix-la e subiu correndo os degraus da 
varanda para abraar o irmo.
    Deix-la ali sentada no era algo muito gracioso de se fazer, mas Deidre compreendia que a felicidade de chegar ao lar tomava conta de Tyrone. Assim, perdoou-o 
por isso. No entanto, os dois se puseram a conversar, muito animados, e passados vrios minutos Deidre comeou a se sentir incomodada demais. Por isso, resolveu 
se levantar e foi juntar-se a eles na varanda.
    Tyrone se deu conta de que no agira bem quando Stephen virou o rosto para fit-la, corando e percebendo que momentaneamente, a havia esquecido. Embaraado, 
ele a tomou pelo brao e a apresentou ao irmo. Porm, Stephen Callahan, como Jason, tambm pareceu reagir com demasiado interesse ao sorrir para Deidre e beijar 
sua mo, e assim Tyrone a puxou para perto de si outra vez.
    - O cartrio ainda est aberto, Stephen?
    - Seguramente que sim. Sei que o juiz est em casa, pois tem andado meio adoentado, portanto podemos passar por l e nos assegurar de que veja as escrituras 
de posse antes de as entregarmos no cartrio.
    - Tem certeza de que podemos confiar no juiz Lennon? - Tyrone colocou o brao sobre o ombro de Deidre, desgostoso por ver que o irmo a admirava muito alm do 
que deveria.
    - Certeza absoluta! O juiz Lennon no aprecia os Martin e no se importa de demonstrar publicamente a antipatia que nutre por eles. Garanto que gostaria de ter 
provas para incrimin-los dos crimes que cometeram, mas voc conhece a esperteza daquela gente e como fazem tudo de maneira a permanecer impunes.
    - Acha que  boa idia mostrar os papis para o juiz antes de irmos para o cartrio?
    - Sim. Afinal, vrios documentos desapareceram depois de serem entregues no cartrio, e posso jurar que os Martin j conquistaram a confiana de algum que trabalha 
l dentro. Penso que se trata de Will Pope, mas na verdade no importa quem seja. O fundamental  que no podemos confiar que os papis sero guardados em segurana 
at serem apresentados ao juiz para que ele possa tomar uma deciso. Portanto, digo que devemos primeiro passar por sua casa antes de fazer a entrega das escrituras.
    - Est bem. - Tyrone se virou para Deidre em seguida. - Pode nos passar os documentos?
    - Necessito de um momento de privacidade - respondeu ela.
    - Vamos entrar. - E Stephen os conduziu para dentro da casa. -Tambm preciso colocar um agasalho mais pesado antes de sairmos, e tenho de dar ordens para guardarem 
o tren e cuidarem dos cavalos.
    - O tren e os animais sero levados de volta para Brooker amanh pela manh, mas passaro a noite em nosso estbulo. Tem notcias de Mitchell? - quis saber 
Tyrone antes de Stephen partir do salo aquecido por uma enorme lareira.
    - No, mas havamos combinado que ningum enviaria telegramas pelo perigo de serem interceptados, no  mesmo?
    -  isso. De qualquer forma, acredito que nosso irmo teria se comunicado conosco caso enfrentasse problemas ou seguisse viagem acompanhado. - Tyrone deixou 
escapar um suspiro. - V colocar um agasalho para podermos resolver nossas pendncias o quanto antes.
    No levou mais que alguns minutos at Stephen retornar para encontr-los, mas foi o que bastou para Deidre erguer a saia, retirar os documentos do bolso secreto 
e pass-los a Tyrone. Apesar de ter preferido permanecer no calor da residncia, ela gostou de ser convidada a acompanh-los, sobretudo ao ser informada de que iriam 
caminhando, pois estava cansada de cavalos e precisava esticar um pouco as pernas.
    O juiz Lennon os recebeu com simpatia e sem esconder a satisfao ao saber a razo da visita. As escrituras de posse lhe foram mostradas, e ele as estudou com 
cuidado e ar profissionai.
    Por fim, tornou a devolv-los para Stephen, assegurando que ia comunicar a todos os oficiais e amigos importantes que vira os papis que provavam de maneira 
irrefutvel que os Callahan eram os donos legtimos das terras e dos direitos de minerao. Em seguida, sentou-se a uma mesa e providenciou um documento oficial 
para tambm ser entregue no cartrio, no qual atestava que as escrituras lhe haviam sido mostradas e ele estava ciente de sua existncia e legitimidade.
    Tyrone e o irmo Stephen no escondiam a alegria ao partir da casa do juiz e tomar a rua principal em direo ao cartrio. Deidre os acompanhava, tambm exultante, 
pois cumprira o que prometera ao pai e contribura com sua parte para fazer justia. Ambos os Callahan a incluam no regozijo, e Tyrone a fitava sem esconder a gratido 
que lhe dedicava.
    Entretanto, o bom momento terminou, e os dois se tornaram de repente graves e srios ao notar um grupo de homens que se postava no caminho deles pouco adiante. 
Deidre acompanhou o olhar de Tyrone, e dessa vez no necessitou de apresentaes para saber que eram os Martin.
    - Soube que voc deixou a cidade para fazer uma longa viagem, Ty, meu velho - comeou um deles ao chegarem perto, justo o que tinha cabelos grisalhos nas tmporas 
e parecia ser o chefe do cl. - Viajou em segurana?
    - Consegui sobreviver - Tyrone, de cenho franzido, falava com frieza. - Ao contrrio de outros inocentes que tiveram de pagar com a vida.
    - Sinto muito em saber que tal coisa aconteceu. - As pupilas do homem brilharam.
    - Compreendo - Tyrone no disfarou a ironia.
    - Pretendem ir a algum lugar? - um outro, que parecia o mais jovem de todos, quis saber. - Est um pouco frio demais para passear.
    - Temos negcios a acertar. - Tyrone deu um passo adiante e se colocou na frente de Deidre ao notar que o rapaz, que ele sabia chamar-se John Martin, aproximava 
a mo do revlver que trazia preso  cintura.
    - Negcios a resolver no cartrio de registros?
    - Isso mesmo, Johnny! - desafiou Tyrone, apesar de temer que os Martin resolvessem enfrent-los ali mesmo, na rua um tanto deserta por causa da temperatura to 
baixa e da neve que recomeava a cair.
    - Esta histria ainda no terminou - avisou Walter Martin, o chefe da famlia, quando Tyrone, Stephen e Deidre passaram por eles e seguiram caminho.
    - Acredito que j tenha terminado, sim. - Tyrone virou-se um pouco para trs. - Ns j passamos pela casa do juiz Lennon e lhe mostramos os documentos.
    Tyrone sentiu um arrepio nas costas ao continuar em frente, e ao fitar Deidre e Stephen teve certeza de que tambm sentiam o mesmo desconforto.
    Walter, Michael e os outros Martin se consideravam capazes de obter tudo o que queriam, mas haviam perdido a possibilidade de usurpar os bens dos Callahan e 
perderiam ainda muito mais se os atacassem  luz do dia no meio da rua principal da cidade. Entretanto, quem mais preocupava Tyrone era John Martin, o filho caula 
e de pavio mais curto. Por isso, s relaxou quando ouviu Walter ordenar a John que se mantivesse calado e no emitisse opinies se nada lhe fosse perguntado.
    - Pensei que iriam nos matar ali mesmo, no meio da calada! - disse Stephen, ao alcanarem um local distante dos ouvidos dos Martin. - Como pode saber que estamos 
seguros e que eles no tentaro nada antes de chegarmos ao cartrio?
    - No se preocupe, meu irmo. - Tyrone tomou a mo de Deidre. - Os Martin vo tentar tomar nossa vida difcil daqui para a frente, mas sabem que o jogo acabou, 
e ns ganhamos, pois no podero mais usurpar nossas posses.  John Martin quem me aflige, pois conheo seu temperamento explosivo e sei que no hesitaria em atirar 
em um de ns. Mas acredito que Walter o manter na linha.
    - Vocs os venceram, mas eles no foram ainda derrotados, no ?
    - Infelizmente no, Deidre. - Tyrone deu de ombros. - E isso demorar um pouco para acontecer. Necessitamos da unio entre todos aqueles que esto contra os 
Martin. At agora todos lutam sozinhos, cada um por si, e desse modo fica mais difcil de se obterem vitrias. Teremos de nos associar daqui em diante.
    Stephen fez que sim, e Deidre sentiu-se aliviada ao perceber que ainda existiam outras maneiras de lutar contra os Martin e que talvez pudessem ser impedidos 
de ter o controle total da cidade e das fazendas da regio como pretendiam. Contudo, a conversa foi interrompida, pois j chegavam ao cartrio, uma casa de madeira 
com uma grande placa oficial pregada sobre a porta.
    Ao entrarem, logo foram atendidos por Will Pope, o funcionrio a quem Stephen se referira como sendo aliado dos Martin, e Deidre no precisou de mais do que 
alguns minutos para concordar com as suspeitas do irmo de Tyrone. Will Pope era um homem arrogante e rude, e tratava muito mal o outro funcionrio que o auxiliava, 
dando ordens com ares de superioridade e desprezo. No havia dvidas de que era o tipo de criatura que no teria escrpulos e poderia trabalhar para os Martin em 
troca de recompensa financeiras e poder.
    - Que garantia tenho de que estas escrituras so verdadeiras? - Will, com absurda petulncia, esboava um sorriso debochado.
    - Parecem verdadeiras para mim - atreveu-se a dizer o outro funcionrio, mirando os papis por cima do ombro de Will Pope.
    -Talvez no sejam - replicou Will, virando-se com um gesto brusco e empurrando o homem que tentava ajud-lo antes de dar alguns passos e dirigir-se a uma mesa 
de trabalho logo atrs do balco de atendimento.
    - O juiz Lennon aceitou esses documentos. - Tyrone apanhou a carta que o juiz fornecera, que atestava a autenticidade das escrituras de posse.
    - Aquele velho senil?! Will no foi capaz de esconder a irritao, pois, quer quisesse ou no, o juiz era uma autoridade local, e sua palavra e opinio tinham 
valor oficial.
    - Aquele velho senil  um juiz respeitado em todo o Estado de Montana - comeou Tyrone. - E antes que algo acontea aqui dentro e que nossos documentos desapaream, 
 bom que saiba que o juiz Lennon enviar mensagens a todos os oficiais graduados do Estado confirmando que viu nossas escrituras e que a propriedade de nossa fazenda 
e os direitos de minerao nos pertencem acima de qualquer dvida. Talvez essa atitude do juiz faa alguns desses oficiais graduados se perguntarem o que anda ocorrendo 
por aqui.
    - No est ocorrendo nada por aqui!
    - No? Que bom! Entretanto, se eu fosse voc, tomaria mais cuidado em no deixar impresses digitais em todos os documentos que so entregues no cartrio. Agora, 
queremos que firme um registro oficial de que recebeu os papis que trouxemos e nos entregue uma carta afirmando que os recebeu. Sem contar que no iremos embora 
enquanto eles no forem catalogados no livro de documentos recebidos e arquivados com um nmero que comprove sua existncia, como tambm onde se encontram.
    Will Pope hesitou e praguejou baixinho, mas no havia muito que pudesse fazer a no ser cumprir as solicitaes de Tyrone, pois esse era afinal seu trabalho. 
Os Martin poderiam t-lo sob controle, mas nem isso era suficiente para se contrapor a dois Callahan zangados e a tantos documentos genunos e cartas oficiais. Desse 
modo, Will assinou um papel que anulava toda possibilidade de se tentar negar a posse e propriedade dos bens da famlia Callahan, Stephen ainda exigiu que o outro 
funcionrio assinasse como testemunha.
    - Conseguiram vencer! - exclamou Deidre, com satisfao e orgulho, ao sarem do cartrio e retomarem a caminhada pela rua principal, dirigindo-se  casa dos 
Callahan.
    - Sim! E creio que no  m idia espalhar essa notcia, pois tenho certeza de que dar alento a muita gente para lutar por seus direitos. Os Martin no venceriam 
com tanta facilidade se todos agissem da mesma forma. O problema  que muitas pessoas no conhecem os prprios direitos e por isso no exigem que sejam cumpridos, 
garantindo que viles e corruptos dominem o mundo e roubem o que no lhes pertence.
    Ao retomarem  residncia dos Callahan, Tyrone conduziu Deidre ao salo e pediu que lhe servissem chocolate quente com biscoitos. Ela sentou-se numa grande poltrona 
em frente ao fogo e, apesar de estranhar um pouco, no se importou quando Tyrone pediu licena e tornou a sair para a rua com o irmo, pois estava de fato confortvel, 
e o chocolate quente no tardou a chegar, acompanhado de biscoitos que pareciam sados do forno naquele momento. Era bom ficar alguns instantes sozinha. E quem sabe 
Tyrone at mesmo pretendia lhe comprar um presente de Natal!
    
    - Espero que tenha uma boa razo para me trazer de volta para o frio - reclamou Stephen assim que saram, e Tyrone indicou que caminhassem na direo oposta 
de onde acabavam de chegar.
    - Deidre e eu seguiremos para a casa da fazenda assim que eu voltar, e pensei que esta seria a nica chance que teria para lhe comprar um presente.
    - Compreendo... - Stephen sorriu. - Quais so seus planos com relao  atraente srta. Kenney?
    - Por que quer saber?
    Antes que Stephen pudesse responder, ambos entraram no enorme armazm de Paradise, a maior loja local, na qual se vendia todo tipo de mercadoria: desde roupas 
e artigos pessoais at mveis e decoraes, e tambm ferramentas de trabalho e comida. Tyrone j parecia ter algo em mente, pois conduziu o irmo direto para a seo 
de jias e adornos femininos, uma das mais exclusivas daquele estabelecimento comercial. Surpreso, Stephen preferiu nada comentar, esperando pela iniciativa do irmo, 
e Carl, um atendente que ambos conheciam, veio servi-los.
    Sem demora Tyrone fixou a ateno num delicado anel de ouro que ostentava uma linda prola da mais pura qualidade, e o indicou para que Carl o retirasse da vitrine 
do balco.
    - O que acha? - Tyrone mostrou o anel para o irmo.
    -  muito bonito, sem sombra de dvida.
    Tyrone sorriu satisfeito, ainda mais por ter certeza de que o aro tinha o tamanho ideal para se ajustar ao dedo de Deidre. Em seguida, virou-se para Carl confirmando 
que o compraria e pedindo que fosse colocado numa daquelas pequeninas caixas de veludo e cetim onde se guardam jias.
    - Trata-se de um presente de despedida ou de um anel de noivado? - quis saber Stephen quando o atendente se afastou. - Isso  importante para voc?
    - Sendo o irmo mais jovem, sem dvida gostaria de saber o que meu irmo mais velho pretende fazer da vida. De qualquer forma e se quer que eu seja franco, penso 
que voc seria um idiota e deixasse uma mulher como Deidre ir embora.
    - Mal a conhece, Stephen.
    - Mas voc j me contou a respeito do que se passou na viagem, e basta estar alguns momentos com essa garota para se saber que  muito honesta e atraente, de 
personalidade viva e bastante inteligente. Sem contar que tambm j notei a maneira como voc a olha!
    - Como assim?
    - Como uma sobremesa que  a melhor parte do jantar e no se pode parar de comer ainda que o estmago esteja cheio! - Stephen piscou o olho, malicioso.
    Nesse momento, Carl voltou com o anel acondicionado numa linda caixinha. azul-marinho, e depois de feito o pagamento os irmos Callahan tornaram a sair e a tomar 
o rumo de casa.
    - Vo se casar, ento? - perguntou Stephen enquanto caminhavam.
    - Pretendo pedi-la em casamento na manh de Natal ou mesmo na vspera. Voc saber se Deidre aceitou ou no quando vier para a fazenda para o jantar em 25 de 
dezembro.
    - Posso jurar que Deidre aceitar.
    - Como pode afirmar isso com tanta convico?
    - Porque, meu querido irmo, ela olha para voc da mesma maneira como voc a olha!
    
    Tyrone observou Deidre de soslaio durante todo o caminho para a fazenda. Ela continuava calorosa e amigvel como sempre, e seu olhar deixava entrever o quanto 
o considerava um homem atraente e capaz de despertar seus sentidos. Entretanto, agora que pensava em de fato se casar, Tyrone sabia que necessitava de mais do que 
amizade, companheirismo e desejo sexual. Ele passara a querer a confirmao de um sentimento mais profundo e permanente, algo que dispusesse algum a assumir e enfrentar 
uma vida lado a lado com outra pessoa. Para ser sincero, sentia-se um pouco covarde por ter tal necessidade; mas ela existia e explicava a insegurana e nervosismo 
que o atingiam no momento.
    Quando afinal chegaram  entrada do grande rancho, Deidre foi apresentada  simptica Sra. Home, que tomava conta da casa havia muitos anos e a conduziu a seus 
aposentos. Tyrone saiu para cuidar pessoalmente dos cavalos, apesar dos protestos dos capatazes. Aqueles animais os fizeram vencer muitas e muitas milhas enfrentando 
o frio e o perigo, e agora o mnimo que mereciam era um pouco de carinho e ateno especial da parte do dono.
    Um excelente jantar esperava os dois quando Tyrone voltou para a casa depois de cuidar das montarias e, apesar de desejar tomar um longo banho quente, resolveu 
deixar para mais tarde, pois no via a hora de desfrutar da primeira refeio com Deidre naquela residncia que, esperava, ela aceitaria como lar. E depois de comerem, 
queria ainda mostrar-lhe todos os aposentos.
    E foi exatamente o que fizeram. Aps alimentarem-se bem e com calma, Tyrone a levou a conhecer todo o interior da linda casa de fazenda, que pertencia  famlia 
Callahan havia tantos anos, e Deidre se encantou. A cada um dos sales principais que adentrava, ocorriam-lhe idias a respeito dos enfeites que pretendia fazer 
para celebrarem o Natal.
    Ao terminarem a excurso, Tyrone a levou para seu quarto e, sem perder tempo, a abraou e comeou a beij-la.
    - Tyrone... - disse Deidre entre um beijo e outro - ...o que a sra. Horne vai pensar?
    Deidre no tinha realmente vontade de parar com as carcias, mas tambm no desejava se comportar de uma maneira que pudesse desapontar a boa senhora e causar 
sua reprovao.
    - Ela no vai conden-la por isso, Deidre. - Tyrone a deitou sobre seu leito e comeou a desabotoar-lhe a blusa. - Vou lhe contar um segredo de famlia: meu 
pai enviuvou jovem, e alguns anos depois a sra. Home se tornou sua amante at ele falecer. Se ainda estivesse vivo, creio que estariam casados hoje em dia.
    - Voc nunca trouxe outras... - comeou Deidre, mas interrompeu o que ia perguntar, pois no queria indagar sobre as mulheres que Tyrone tivera.
    -  a primeira mulher que ocupa minha cama nesta casa, Deidre - ele afirmou, adivinhando o que ela pensava. - E, por Deus, voc a merece!
    Em pouco tempo ambos se desnudavam e mais uma vez se entregavam  paixo que juntos conseguiam viver e proporcionar um ao outro. Os cabelos ruivos de Deidre 
se espalhavam soltos sobre o alvo lenol, e Tyrone ergueu-se sobre os cotovelos por instantes para apreciar a beleza daquela mulher, que tambm o desejava e queria. 
Ao tornar a abra-la e sentir seus corpos se tocando por inteiro, Tyrone quis muito que aquela fosse a primeira de muitas e muitas noites que compartilhariam naquele 
leito. Ele se sentia vulnervel agora, pois reconhecia a necessidade que tinha de que Deidre concordasse em se casar e viver a seu lado, e se porventura ela recusasse, 
no saberia como fazer para se reerguer e continuar com a vida solitria.
    Contudo, Deidre o abraava sem esconder a extenso e profundidade do desejo que Tyrone despertava em seu corpo, e ao menos isso ele conhecia e tinha algum poder 
para controlar.
    Se necessrio, resolveu Tyrone, cultivarei e usarei essa necessidade que Deidre tem de mim at finalmente conseguir que me ame.
    
    
    Capitulo XII
    
    Deidre depositou o presente de Maura sob a rvore de Natal e deu uns pssos para trs para admirar seu trabalho. Os homens de Tyrone haviam cortado um lindo 
pinheiro e colhido ramas e pinhas para os adornos que ela passara o dia confeccionando. Apesar de ocupado com a leitura da correspondncia acumulada durante sua 
ausncia, Tyrone veio encontr-la vrias vezes para apreciar seus esforos e roubar um beijo ou um abrao.
    Depois do jantar eles se sentaram defronte da lareira para desfrutar da companhia um do outro e da calma reinante. A sra. Horne fora passar o Natal com parentes, 
e os empregados que no tinham famlia organizariam um jantar num dos galpes da fazenda no dia seguinte, ocasio em que seriam distribudos os presentes que os 
Callahan haviam comprado para todos. O fogo da lareira criava um clima aconchegante, e a neve que caa l fora j no era um problema, e sim trazia encanto  noite 
que precedia o dia de Natal. Tudo parecia perfeito, e Deidre se sentia perigosamente feliz.
    -Tem certeza de que poder preparar sozinha o jantar amanh? - Tyrone a enlaou pela cintura e puxou para mais perto de si.
    - A sra. Horne deixou tudo preparado, por isso ser a ceia natalina mais fcil que j preparei em toda a minha vida. - Deidre sorriu, mas de repente lhe ocorreu 
que talvez houvesse exagerado ao fazer tantos adornos para enfeitar a casa. - 0 Natal  minha festa favorita, e espero que no se importe por eu ter me deixado levar 
pelo entusiasmo.
    - Estou feliz que o tenha feito, Deidre, a casa est linda - assegurou Tyrone, beijando-a na face.
    - Tem de abrir seu presente agora! Infelizmente, s tenho um para lhe dar.
    - Voc me ajudou a manter as propriedades da famlia. No pode haver presente maior do que esse.
    - Ora, eu havia decidido faz-lo antes mesmo de conhec-lo - replicou Deidre, levantando para ir buscar o presente de Tyrone de sob a rvore.
    Ele sorriu ao receber a caixa que Deidre lhe entregou, mas hesitou um momento antes de desmanchar o lindo embrulho.
    - No precisava ter se preocupado em. me dar nada.
    - Vamos, abra! Quero ver se vai gostar.
    Tyrone desfez o embrulho com cuidado para no ferir o papel e retirou uma linda faca com cabo de madeira incrustado de marfim e prata.
    -  linda, Deidre! Como soube que aprecio estas coisas?
    - Um passarinho me contou.
    - Onde conseguiu comprar um artigo to lindo na viagem para c?
    - No comprei. - Baixando o olhar, ela se tomou sria. - Essa faca pertencia a papai.
    Tyrone a fitou, emocionado. Sabia muito bem o que aquilo significava. Deidre amara e admirara o pai, e presente-lo com um objeto que fora dele sem dvida era 
uma prova de que sentia mais do que simples desejo e paixo sexual. Ele sorriu e tornou a abra-la, beijando-a com ternura nos lbios.
    - Obrigado, querida. - Enternecido, afastou o rosto para fitla nos olhos. - Tambm tenho algo para voc. - E retirou a caixinha que trazia no bolso, passando-a 
para Deidre.
    Ela abriu a caixinha devagar e prendeu a respirao ao descobrir um delicado anel de ouro com uma prola magnfica. Sua reao imediata foi de enorme felicidade, 
mas logo as dvidas se imiscuram em seu corao: seria o tipo de presente que um homem dava  amante, uma recompensa pelos bons momentos que desfrutaram? Ou ser 
que significava algo que ela nem ousava pensar, pois ultrapassava seus maiores sonhos de felicidade?
    -  uma beleza - murmurou.
    Tyrone retirou a jia e a colocou no dedo de Deidre, que ser- viu-lhe  perfeio. Ao v-la com o anel, tudo se tornou muito claro, e Tyrone no teve mais dvidas: 
amava aquela mulher e queria que Deidre permanecesse a seu lado e dividisse a vida com ele. Em um segundo, tudo se reduzia quela verdade simples e irrefutvel, 
transparente como gua dentro de um copo de cristal. Entregar-lhe aquela jia significava mais do que uma prova do amor que sentia. Significava que aquela era a 
companheira que escolhia para si e com a qual desejava passar o restante de seus dias.
    Entretanto, ainda era necessrio saber o que Deidre pensava e como reagiria.
    - Case-se comigo, Deidre - disse Tyrone, sem pensar, as palavras brotando do corao sem lhe dar tempo para soar mais romntico ou fazer o pedido de forma a 
que no parecesse uma ordem.
    A surpresa fez Deidre prender a respirao. No sabia dar nome  emoo que se apoderou dela. Sentia-se confusa. O que movia Tyrone? Apenas a paixo sexual?
    Mordendo o lbio, resistiu ao enorme impulso de dizer sim e o encarou, afastando-se um pouco.
    - Por qu?
    Tyrone tambm pareceu espantado, e respirou fundo antes de dizer:
    - Por tantas razes... - Tornou a abra-la.
    - Por ter tirado minha virgindade?
    - Eu estaria mentindo se dissesse que isso no  relevante, mas no  a verdadeira razo.
    - Pela satisfao carnal que proporcionamos um ao outro?
    - Qual homem jogaria fora algo to importante?
    - A paixo acaba com o tempo.
    - Eu sei, mas no creio que acontecer conosco. No me fingirei de inocente, escondendo a experincia que tive com outras mulheres, mas com voc foi diferente 
desde quando a beijei pela primeira vez. No incio, pensei que s desejava seduzi-la, mas isso mudou com o tempo.
    Tyrone baixou o olhar, tmido. No era fcil expressar o que lhe ia no ntimo, talvez pelo indito das emoes que tomavam conta dele. Entretanto, e mesmo que 
custasse, era necessrio abrir o corao para que no restassem dvidas a respeito de seu amor.
    - Deidre, talvez tenha sido covarde por no lhe dizer isso antes, ou talvez no o tenha feito porque no o soubesse ou no conseguisse admitir: necessito t-la 
a meu lado e quero dividir minha vida com voc. Quanto mais nos aproximvamos de Paradise, mais eu compreendia que no poderia deix-la partir. At mesmo Jason e 
Stephen viram isso em mim e me disseram que seria loucura eu permitir que fosse embora. Quero dividir meu leito com voc todas as noites e acordar a seu lado pela 
manh.
    Ele ainda no disse que me ama, mas no diria nada disso se no me amasse. Naquele momento Tyrone a fitava com um olhar que tinha algo de desesperado. Ento 
Deidre compreendeu que no respondera  proposta que lhe fora feita. Afinal, chegava a hora de faz-lo. Desse modo, respirou fundo antes de proferir as palavras 
que mudariam seu destino:
    - Sim, Tyrone. Eu me casarei com voc.
    Entretanto, ele no sorriu logo, como Deidre achou que aconteceria. Em vez disso, algo turvou seu olhar, e Tyrone a olhou com ainda mais intensidade.
    - Agora  minha vez de fazer a mesma pergunta. Por que quer se casar comigo?
    Deidre sabia que no podia mais esconder o que sentia e, de qualquer forma, como casar com um homem se no fosse capaz de dizer que o amava?
    - Porque te amo, Tyrone.
    O rosto dele de sbito se iluminou, seus olhos perderam o brilho de inquietao e passaram a irradiar uma enorme felicidade. Contudo, ele ainda no dissera o 
que ela mais queria ouvir.
    - Gostaria de ser mais romntico, mas h algo que no conseguirei deixar para mais tarde. - E comeou a abra-la com um fogo que Deidre conhecia muito bem e 
que tambm j comeava a queim-la por dentro.
    - Quer fazer amor aqui?!
    - Prefere ir para a cozinha? - ele brincou.
    Deidre cerrou os olhos e mesmo sem ainda ter ouvido o que necessitava ouvir, entregou-se  paixo que mais uma vez os devorava.
    Seus corpos no tardaram a se fundir no contato mais ntimo e profundo que pode existir entre um homem e uma mulher. Sem aviso, porm, Tyrone elevou o tronco 
e a encarou.
    - Diga outra vez, Deidre. Repita o que disse h pouco, pois necessito saber que nossa ligao vai alm do sexo.
    - Eu te amo, Tyrone.
    Tyrone ainda a fitou um instante como se aquelas palavras fossem um blsamo que lhe curavam todos os males.
    - Tambm te amo, Deidre.
    - Voc me ama?!
    - Sim, eu te amo, Deidre Kenney, e quero que se tome Deidre Callahan.
    Ela o estreitou junto ao peito, sentindo os olhos se encherem de lgrimas, mas Tyrone tornou a afastar o rosto.
    - Est chorando?!
    - So lgrimas de felicidade, querido.
    
    Ambos se deixaram ficar lado a lado por um longo tempo, calados, pois o fundamental havia sido dito, e o silncio no significava ausncia de comunicao, e 
sim, ao contrrio, provava que podiam se comunicar mesmo sem palavras.
    Tyrone havia rolado para o lado, e afinal foi Deidre quem se ergueu para fit-lo antes de recomear a falar:
    - Amanh  dia de Natal, e nunca passei o Natal longe de casa - comeou ela, mas imediatamente teve receio que Tyrone no a entendesse. - Sei que aqui  meu 
lar agora, mas voc compreende que h algum por quem me preocupo.
    - Claro que sim, e sei que est pensando em sua prima. Tambm penso em meu irmo Mitchell, e peo a Deus que estejam juntos, e sos e salvos.
    - Cr que  possvel que tenham se encontrado?
    - Nosso encontro aconteceu apesar de improvvel, e minha intuio diz que o destino fez os caminhos deles se cruzarem tambm.
    - Seria maravilhoso se chegassem a tempo de passar o Natal aqui na fazenda conosco!
    - Mitchell tem essa inteno tanto quanto eu a tinha. Tenha em mente que se ns conseguimos realizar a viagem e chegar aqui em segurana, eles tambm o conseguiro.
    - Maura poder viver conosco?
    - Evidente, desde que assim o deseje. Mas se ela no quiser, isso far voc mudar de idia?
    - Maura  livre para fazer suas prprias escolhas e apoiarei minha prima se preferir voltar para Saint Louis, mesmo isso me causando pesar. Contudo, minha vida 
 a seu lado, Tyrone, e nada mudar isso.
    - Eu te amo, Deidre, e sei que a amarei para sempre.
    - Sim, sr. Tyrone Callahan. E saiba que isso  o que espero, pois meu amor por voc tambm jamais vai acabar.
    
    FIM
    
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